Falta de materiais: como calcular

Falta de materiais: como calcular

Ficar sem material no meio de uma ordem de produção custa muito mais do que ter comprado a mais. Quando a linha para porque falta um insumo, não se perde apenas o tempo das pessoas que estão na oficina: a entrega atrasa, a máquina fica ocupada com um trabalho pela metade, corre-se o risco de danificar o que já estava processado e, muitas vezes, acaba-se comprando às pressas, a um preço pior e com um fornecedor que não é o habitual. O custo de manter um insumo guardado por algumas semanas é pequeno comparado a essa desordem.

Por isso a falta não se descobre na oficina: calcula-se antes. Antes de iniciar a ordem, com a receita em mãos, com o estoque à vista e com uma data firme do pedido. Ao longo deste artigo veremos quais dados são necessários, como a fórmula se aplica, como converter a falta em embalagens de compra, como definir a data limite do pedido, quantas unidades podem ser fabricadas hoje com o que existe no estoque e o que fazer quando a falta é pequena, média ou grande.

O que é a falta de materiais e quando detectá-la

A falta de materiais é a diferença entre o que se precisa para fabricar algo e o que de fato está disponível para fazê-lo. Não é um erro do almoxarifado nem uma falha da oficina: é um número e, como todo número, pode ser calculado com antecedência. A meta não é ter o depósito sempre cheio, porque isso imobiliza dinheiro; a meta é saber, antes de iniciar, se o que existe é suficiente ou se é preciso sair para comprar.

O momento correto de detectá-la é justamente antes de aprovar ou liberar a ordem de produção, quando ainda é possível mudar a data, ajustar a quantidade ou conseguir o material com calma. Se o cálculo for deixado para o dia em que a máquina já está preparada, as opções se reduzem a pagar um frete urgente ou parar a linha.

Para fazer esse cálculo você precisa de duas coisas confiáveis: a receita e o estoque. No Kardex Tauro a lista de materiais de um produto acabado é guardada de duas maneiras, conforme o uso. Como KIT ou COMBO ela é uma lista obrigatória: na venda, o sistema valida se os componentes existem e os desconta do estoque automaticamente. Como LINHA DE PRODUÇÃO ela é uma lista informativa: funciona como a receita teórica do produto, serve para comparar e emitir relatórios, mas não bloqueia a produção nem desconta componentes por conta própria.

Nessa lista de materiais registra-se quanto material uma unidade do produto acabado consome, e há suporte para listas aninhadas: um componente pode ter seus próprios componentes, até três níveis. Isso importa para a falta, porque um insumo de segundo ou terceiro nível também pode parar uma ordem inteira.

A ordem de produção, por sua vez, só aceita produtos criados como tipo LINHA DE PRODUÇÃO. Nela se registra o que será fabricado, quanto e para quando; ao finalizar a ordem registra-se o consumo real, e esses consumos ficam vinculados à ordem. Com essa informação o sistema permite comparar o consumo teórico da receita com o consumo real e gerar relatórios de consumo de matérias-primas. Também é possível consultar o estoque atual por depósito e ver a ficha de estoque de cada componente.

Em outras palavras: o programa fornece a receita, o estoque, o registro do consumo real e os relatórios de consumo. O cálculo da falta é tarefa do usuário. Não há uma tela que faça isso por você nem um alerta automático; o que existe são todas as informações necessárias para fazê-lo bem e a tempo. Essa é justamente a vantagem: com a receita cadastrada e o estoque em dia, o cálculo se resolve em uma folha de papel ou em uma planilha em poucos minutos.

Os dados necessários antes de calcular

Antes de pegar a calculadora, reúna os dados da tabela. Se algum faltar, o resultado será um número com letras miúdas que você não conseguirá defender diante do fornecedor nem do cliente.

DadoDe onde vemPara que serve no cálculo
Quantidade por unidade (receita)Lista de materiais do produto acabadoMultiplica-se pelas unidades a fabricar
Unidades a fabricarA ordem de produçãoDefine o tamanho da necessidade
Estoque no depósito de produçãoConsulta de estoque por depósitoÉ a parte do material que já está à mão
Material em trânsito com data firmePedidos confirmados com data de entrega comprometidaDesconta-se da necessidade porque já está vindo
Unidade de compra e conteúdo da embalagemCadastro do insumo e oferta do fornecedorConverte a falta em sacos, rolos, caixas ou litros
Desperdício normal do processoDefinido internamente pelo negócioÉ a folga que evita pedir de novo em plena produção
Prazo de entrega do fornecedorHistórico de compras e confirmação do fornecedorServe para calcular a data limite do pedido
Data em que o material é necessárioData de início da ordem de produçãoÉ o ponto de partida para contar o calendário de trás para frente

Repare em um detalhe que muitas vezes passa despercebido: o estoque que conta não é o da empresa inteira, mas o disponível no depósito de onde o material será consumido. Se o insumo estiver dividido em dois depósitos e um deles não abastecer a produção, esse material não entra no cálculo, ainda que apareça no total da empresa. Por isso vale conferir o estoque depósito por depósito e não apenas o número consolidado.

A fórmula da falta explicada em palavras e em símbolos

Em palavras, o cálculo se lê assim: primeiro obtém-se o material necessário, multiplicando o que a receita pede por unidade pelas unidades que serão fabricadas. Depois calcula-se o disponível, que é o que existe no depósito de produção mais o que já vem a caminho com data firme. Por último subtrai-se: do necessário retira-se o disponível e, se o resultado for positivo, essa é a quantidade que precisa ser conseguida antes da data da ordem. Se o resultado for zero ou negativo, não há falta e pode-se iniciar.

Em símbolos, com letras fáceis de lembrar: N = C x U, onde N é o material necessário, C é a quantidade por unidade conforme a receita e U é o número de unidades a fabricar. Depois D = E + T, onde D é o disponível, E é o estoque no depósito de produção e T é o material em trânsito com data firme. E por fim F = N - D, onde F é a falta. Se F for maior que zero, é preciso comprar; se F for igual ou menor que zero, a ordem pode começar com o que já existe.

Duas advertências sobre a fórmula. A primeira: o material em trânsito só entra no cálculo se tiver data firme e se essa data for anterior ao início da ordem; um pedido sem data confirmada não é um plano, é uma esperança. A segunda: o cálculo é feito insumo por insumo, não sobre o total. Um produto pode ter material de sobra para nove dos dez componentes e parar por causa do único que falta. A falta do conjunto é a falta do pior caso, não a média.

O exemplo resolvido passo a passo

Vejamos um caso completo com números redondos. Serão fabricadas 300 unidades de um produto acabado. A receita pede 0,25 kg de um insumo por unidade. No depósito de produção há 40 kg desse insumo, e existe um pedido já confirmado de 10 kg que chega com data firme antes do início. O fornecedor vende esse insumo em sacos de 20 kg e seu prazo de entrega é de 4 dias. A ordem está programada para começar em 6 dias.

PassoCálculoResultado
Material necessário0,25 kg por unidade multiplicado por 300 unidades75 kg
Disponível40 kg no depósito mais 10 kg em trânsito com data firme50 kg
Falta75 kg menos 50 kg25 kg
Conversão em embalagens25 kg divididos por sacos de 20 kg dão 1,252 sacos, arredondando para cima
Material pedido2 sacos por 20 kg40 kg
Folga que sobra40 kg pedidos menos os 25 kg da falta15 kg
Data limite do pedido6 dias até o início menos 4 dias de entregaÉ preciso pedir em no máximo 2 dias
VeredictoA falta é coberta se o pedido for feito hojeDá certo, com 15 kg de margem

Leia o resultado completo: é preciso conseguir 25 kg antes do início, o insumo é comprado em sacos de 20 kg, então pedem-se 2 sacos que somam 40 kg, sobram 15 kg que ficam como folga contra o desperdício normal do processo, e o pedido tem de sair hoje ou amanhã no máximo. Com esses quinze quilos a mais o risco é mínimo; se o processo desperdiçar mais do que o previsto, essa folga é o que evita parar a linha no meio da ordem.

Converter a falta em embalagens de compra e somar o desperdício

Um erro clássico é ficar com o número da falta e sair para comprar "25 kg". O fornecedor não vende quilos soltos: vende sacos de 20 kg, rolos de determinado comprimento, caixas com um número fixo de unidades ou galões de um volume específico. A conversão correta tem três passos: passar a falta para a unidade de compra, arredondar sempre para cima e somar o desperdício normal do processo.

O arredondamento para cima não é capricho. Se o cálculo dá 1,25 sacos, pedir um único saco deixa a falta exposta assim que o material for consumido, e pedir de novo custa mais do que ter comprado o saco completo: outro frete, outra espera, outra papelada. Arredonda-se para cima porque as unidades de compra não vêm pela metade.

O desperdício, por sua vez, é o material perdido no processo normal que nunca aparece na receita: cortes, sobras, ajustes de máquina, amostras de partida, material danificado no manuseio. Esse valor é definido por cada negócio a partir da própria experiência e deve ficar registrado para não ser reinventado a cada vez. No exemplo, os 15 kg de folga que sobram ao pedir 2 sacos cumprem exatamente esse papel: absorvem o desperdício sem obrigar a uma compra adicional. Quando a falta é exatamente um número inteiro de embalagens, a folga é zero e vale perguntar se não compensa pedir uma embalagem a mais, sobretudo se o insumo é usado todos os meses.

A data limite do pedido e o que fazer se ela já passou

A falta diz quanto comprar; a data diz quando. A data limite do pedido é calculada tomando a data em que o material é necessário e subtraindo o prazo de entrega do fornecedor. Se o material é necessário no dia 6 e o fornecedor leva 4 dias, o pedido tem de sair no dia 2, no máximo. Vale acrescentar uma pequena margem caso o fornecedor atrase ou o transporte demore, porque a data de início não admite negociação.

Se a subtração mostrar que a data limite já passou, não resta outra saída senão decidir com a cabeça fria entre quatro caminhos. O primeiro é priorizar outro pedido: se houver um insumo que chega antes e serve para o mesmo fim, adianta-se esse e empurra-se o resto. O segundo é a compra parcial: conseguir uma parte da falta para iniciar e o restante depois, aceitando que a ordem termine em duas etapas. O terceiro é substituir a referência: procurar um insumo equivalente já disponível, verificando se atende às mesmas condições técnicas. O quarto é reprogramar a ordem: mover a data de início para um dia em que o material esteja garantido, avisando com antecedência a área comercial e o cliente.

O que nunca é recomendável é iniciar a produção com uma falta conhecida e confiar que o material chegará a tempo. Esse é o caminho mais caro: a ordem fica pela metade, os operadores passam para outra tarefa, o produto em processo ocupa espaço e, no fim, o custo da pressa supera com folga o de ter comprado um saco a mais.

A janela de produção de hoje

O mesmo cálculo da falta serve ao contrário e responde a outra pergunta muito útil: quantas unidades podem ser fabricadas hoje com o material disponível. Para isso, toma-se o disponível e divide-se pela quantidade por unidade da receita. No exemplo, 50 kg disponíveis divididos por 0,25 kg por unidade dão 200 unidades. Ou seja, com o que há no depósito e em trânsito é possível fabricar 200 das 300 unidades programadas.

Esse número é uma ferramenta de decisão diária. Se a janela de produção de hoje cobre os pedidos mais urgentes, pode-se começar por eles e deixar o resto esperando o material que está vindo. Se a janela não cobre nem o pedido mais urgente, o problema não é de programação, mas de abastecimento, e precisa ser resolvido antes de ligar a máquina. Calculada insumo por insumo, a janela mostra ainda qual é o componente que limita: o que dá a janela menor é o que deve ser vigiado.

O que fazer conforme o resultado

Nem toda falta é tratada da mesma forma. Uma falta pequena se resolve com uma compra rápida; uma falta grande pode obrigar a reprogramar. A tabela resume os cenários e a decisão que cabe a cada um.

Resultado do cálculoO que significaO que fazer
Falta zero ou negativaO disponível cobre a necessidade completaIniciar a ordem conforme programado e não comprar nada
Falta pequena, menor que uma embalagem de compraFalta pouco, mas faltaComprar a embalagem completa e manter a sobra como folga
Falta de uma ou duas embalagensA compra cabe no prazo normalPedir imediatamente, confirmar a data de entrega e verificar se chega antes do início
Falta grande, de várias embalagens ou maior do que o fornecedor entrega de uma vezA compra não cabe completa no tempo disponívelComprar em partes, iniciar com o que chegar primeiro ou reprogramar a ordem
Material em trânsito com data firme antes do inícioA falta está coberta por um pedido a caminhoConfirmar a data com o fornecedor e não comprar a mesma coisa de novo
Material em trânsito sem data confirmadaNão é um plano, é uma intençãoTratar como se não existisse e calcular a falta sem contá-lo

Faltas crônicas: quando o problema não é a compra

Há um sintoma que vale aprender a ler: quando um mesmo componente aparece na lista de faltas todos os meses, o problema não é a compra. Se um insumo falta de forma repetida, comprar mais rápido alivia o mês em curso, mas não corrige nada, porque no mês seguinte volta o mesmo aperto. Uma falta crônica aponta quase sempre para uma de três causas.

A primeira é o estoque mínimo mal definido: o ponto de pedido está abaixo do consumo real, então o depósito fica curto de forma sistemática. A segunda é o rendimento da receita: a quantidade por unidade ficou desatualizada, seja porque mudou o fornecedor, porque mudou a apresentação do insumo ou porque o produto foi redesenhado e a lista de materiais não foi atualizada. A terceira é o desperdício real: o processo perde mais material do que se acreditava, e esse excesso nunca esteve no cálculo.

Para enfrentar uma falta crônica é preciso olhar os relatórios de consumo e comparar o consumo teórico com o real. Se o consumo real for consistentemente maior que o teórico para o mesmo produto, a diferença não é acidente: é informação. Com essa comparação corrige-se a receita, ajusta-se o estoque mínimo ou reconhece-se o desperdício, e a falta deixa de se repetir. Enquanto isso não for feito, o negócio continuará comprando às pressas todos os meses e pagando o custo extra da pressa.

Erros comuns ao calcular a falta

Estes são os tropeços que mais se repetem quando o cálculo é feito à mão:

  • Usar o estoque total da empresa em vez do estoque do depósito de produção, contando material que na prática não está disponível para aquela ordem.
  • Ignorar o material em trânsito e comprar duas vezes a mesma coisa ou, ao contrário, contá-lo sem verificar se a data de entrega é firme e anterior ao início.
  • Esquecer o desperdício normal do processo e pedir exatamente a falta, de modo que o material dá para quase toda a ordem, mas não para terminá-la.
  • Pedir a falta em unidades de receita em vez de convertê-la para a unidade de compra, fazendo com que o pedido de compra não corresponda ao que o fornecedor vende.
  • Não anotar a data firme prometida pelo fornecedor nem o prazo de entrega, ficando sem condições de calcular a data limite do pedido.
  • Conferir a falta apenas uma vez, no início, e não olhar de novo quando muda a quantidade a fabricar ou chega um novo pedido de clientes.
  • Descobrir a falta quando a máquina já está montada, que é o momento em que não restam opções baratas.
  • Não registrar o consumo real ao fechar a ordem, perdendo a única fonte confiável para corrigir a receita e o estoque mínimo.

Um cálculo de dez minutos que evita uma semana de atraso

Calcular a falta de materiais não exige um sistema complicado nem uma reunião longa: exige a receita cadastrada, o estoque em dia e a disciplina de fazer a subtração antes de iniciar. Com a quantidade por unidade, as unidades a fabricar, o disponível no depósito de produção e o que vem a caminho com data firme, o resultado aparece em uma folha. Depois basta converter em embalagens, arredondar para cima, somar o desperdício e olhar o calendário para saber se o pedido chega a tempo.

É aí que o Kardex Tauro faz a sua parte: guarda a lista de materiais de cada produto acabado, permite consultar o estoque por depósito, registra o consumo real ao fechar a ordem de produção e gera os relatórios de consumo de matérias-primas, além de mostrar a ficha de estoque de cada componente. O cálculo é seu, com esses dados à vista; a diferença entre parar uma linha e iniciar com tranquilidade está em fazê-lo antes de a ordem começar.

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