NIC 2: o que a norma diz sobre estoques (explicação para pequenas empresas)

NIC 2: o que a norma diz sobre estoques (explicação para pequenas empresas)

Se o seu negócio compra ou produz produtos para vender, os estoques provavelmente estão entre os maiores itens do seu balanço. Mesmo assim, poucos donos de pequenas empresas sabem dizer com precisão o que deve ser registrado como estoque, quais custos podem entrar no seu valor e quando esse valor precisa ser reduzido. A NIC 2 é a norma internacional que responde a essas perguntas. Conhecê-la não é assunto apenas de contadores: é uma ferramenta prática para saber quanto valem realmente as mercadorias que estão no seu depósito, quanto lucro a sua operação está gerando e quão confiável é a informação que você recebe todos os meses.

Neste artigo explicamos, em linguagem simples e com um exemplo numérico, o que a NIC 2 regula, quais custos fazem parte do valor dos seus estoques, quais ficam de fora, como o estoque é mensurado em cada fechamento e por que tudo isso acaba afetando o seu lucro e os seus impostos. Ao final, você vai entender por que uma ficha de estoque valorizada, o kardex, bem mantida não é uma simples burocracia: é o ponto de partida de demonstrações contábeis confiáveis.

O que é a NIC 2 e por que ela importa para a sua pequena empresa?

A NIC 2, Norma Internacional de Contabilidade número 2, é a norma que regula o tratamento contábil dos estoques dentro do quadro das IFRS. Ela define o que se entende por estoques, quais custos compõem o seu valor, como os estoques devem ser mensurados após o reconhecimento inicial e quais informações a empresa deve divulgar sobre eles nas suas demonstrações contábeis. Na prática, é o guia que responde à pergunta que todo comerciante faz: por quanto devo manter registradas as mercadorias que tenho em estoque?

Embora tenha sido pensada para empresas de qualquer porte, os seus princípios são os mesmos usados pela IFRS para PMEs no tratamento dos estoques, e muitos normativos contábeis locais são inspirados nela. Por isso, entender a NIC 2 é útil mesmo que a sua empresa não seja obrigada a aplicar as IFRS completas: os conceitos de custo, valor realizável líquido e perdas aparecem, com nuances locais, em quase todos os referenciais contábeis do mundo.

Vale também esclarecer o que fica fora do seu alcance. A norma não se aplica a instrumentos financeiros, a ativos biológicos ligados à atividade agropecuária mensurados ao valor justo, nem a contratos de construção, que têm regras próprias. Para uma pequena empresa típica, o essencial é que a NIC 2 trata das mercadorias para venda, dos produtos em elaboração, das matérias-primas e dos insumos consumidos na produção.

O que conta como estoque?

Para a norma, estoques são ativos mantidos com um de três propósitos: para serem vendidos no curso normal dos negócios, como as mercadorias de uma loja ou os produtos acabados de uma fábrica; para estarem em processo de produção com vista a essa venda, como os produtos semielaborados; ou para serem consumidos na produção ou na prestação de serviços, como matérias-primas, embalagens e suprimentos. Numa empresa comercial, o estoque costuma ser a mercadoria comprada para revenda; numa industrial, a história é mais longa, porque o valor viaja da matéria-prima até o produto acabado.

A regra de ouro para diferenciar um estoque de outro ativo é perguntar como a empresa espera recuperar aquele valor. Se ela espera transformar o item em dinheiro vendendo-o, ou usá-lo para produzir aquilo que vende, dentro do seu ciclo normal de operações, estamos diante de um estoque. Por isso uma máquina não é estoque: embora participe da produção, a empresa não pretende vendê-la no curso normal dos negócios, e ela é contabilizada como imobilizado.

Quais custos fazem parte do valor do estoque

O ponto central da NIC 2 é que o estoque não é registrado pelo valor da nota fiscal do fornecedor, mas por todos os custos necessários para deixar o produto pronto para a venda. É o chamado custo dos estoques, e a norma o organiza em três grandes grupos: custo de aquisição, custo de transformação e outros custos diretamente atribuíveis.

Custo de aquisição

É o custo de comprar a mercadoria e trazê-la para o local e a condição em que a empresa vai vendê-la ou transformá-la. Inclui o preço de compra; os tributos de importação e demais impostos não recuperáveis, ou seja, aqueles que a empresa não pode descontar nem restituir; o transporte, o seguro e o manuseio; e qualquer outro custo diretamente atribuível à aquisição. Do total são deduzidos os descontos comerciais, os abatimentos e outros itens semelhantes. Se a sua empresa importa mercadorias, o frete internacional, os seguros e os tributos fazem parte do custo do estoque, e não uma despesa do período.

Custo de transformação

É o custo de transformar a matéria-prima em produto acabado. Inclui a mão de obra diretamente envolvida na produção e os custos indiretos de produção, fixos e variáveis, alocados de forma sistemática. Os custos indiretos fixos são os que não mudam com o volume produzido, como o aluguel da fábrica ou a depreciação das máquinas; os variáveis, como a energia ou os materiais indiretos, mudam com esse volume. A norma pede que os custos fixos sejam alocados com base na capacidade normal de produção, e não sobre a produção real de um mês anormalmente baixo, para evitar que o estoque absorva custos de capacidade ociosa. O custo de transformação também pode incluir, em alguns casos, a mão de obra e os custos de outros processos, como o desenho de um produto para um cliente específico.

Outros custos para deixar o estoque pronto para vender

A norma permite incluir qualquer outro custo, desde que seja necessário para colocar o estoque na condição de venda. O exemplo clássico são os custos de desenho de um produto feito sob medida para um cliente, ou os de uma embalagem especial sem a qual o produto não pode ser entregue. O teste é simples: se aquele gasto não fosse necessário para deixar o produto pronto para vender, ele não pertence ao estoque.

Quais custos não entram no estoque

Saber o que excluir é tão importante quanto saber o que incluir. A norma rejeita claramente quatro grupos de custos:

  • Desperdícios anormais de materiais, mão de obra ou outros custos de produção, ou seja, os montantes que excedem o que é considerado normal para o processo.
  • Custos de armazenagem, salvo se essa armazenagem for uma etapa necessária do processo produtivo antes de passar à fase seguinte.
  • Gastos administrativos gerais que não contribuem para deixar o estoque em condição de venda.
  • Gastos de venda, como comissões, publicidade e distribuição do produto já acabado.

Isso tem uma consequência prática direta: pagar depósito para guardar produto acabado que já está pronto para vender não aumenta o valor do estoque; o gasto é reconhecido como despesa do período. O mesmo vale para os gastos do escritório central ou para as comissões da equipe comercial: por mais valiosos que sejam para o negócio, não fazem parte do valor das mercadorias.

Mensuração posterior: o menor entre o custo e o valor realizável líquido

Até aqui falamos de como se forma o custo inicial do estoque. Mas o estoque permanece no balanço até ser vendido e, nesse intervalo, o seu valor pode deixar de ser recuperável. A NIC 2 exige então que, em cada data do balanço, o estoque seja mensurado pelo menor entre o seu custo e o seu valor realizável líquido, conhecido pela sigla VRL.

O que é o valor realizável líquido? É o preço estimado de venda no curso normal dos negócios, menos os custos estimados para concluir a produção e os custos estimados necessários para realizar a venda. É uma estimativa específica de cada empresa, e não um valor de mercado genérico: depende daquilo que aquela companhia espera receber e gastar. Se o VRL for menor que o custo, a empresa não vai recuperar o que investiu, e a diferença deve ser reconhecida de imediato como uma perda por desvalorização do estoque, em vez de esperar que a perda se confirme na venda.

Exemplo numérico: custo contra valor realizável líquido

Vejamos como a regra funciona com dois produtos que custaram o mesmo valor, mas têm futuros diferentes.

ItemProduto AProduto B
Custo registrado do estoque100100
Preço estimado de venda120160
Menos: custos estimados para concluir(20)(10)
Menos: custos estimados de venda(15)(20)
Valor realizável líquido (VRL)85130
Valor final nos estoques (o menor)85100

O produto A é o caso que justifica a regra. Custou 100, mas a empresa estima que vai recuperar apenas 85 depois de concluí-lo e vendê-lo. Como o custo não será recuperado, o estoque é ajustado para 85 e a diferença de 15 é reconhecida no período como perda, reduzindo o lucro daquele mês. O produto B, por sua vez, tem um VRL de 130, maior que o seu custo. Aqui a regra evita um erro muito comum: o estoque não é reavaliado para cima, porque a norma não permite reconhecer ganhos por manter estoques. O produto B permanece em 100, e o lucro só será reconhecido quando ele for vendido.

A norma também prevê a situação contrária: se num período posterior as circunstâncias mudarem e o VRL se recuperar, o ajuste pode ser revertido, mas apenas até o montante do custo original. O estoque nunca deve ficar registrado acima daquilo que custou.

Por que isso afeta o seu lucro e os seus impostos

O valor do estoque final aparece no balanço como um ativo, e a sua variação de um período para o outro entra na demonstração do resultado por meio do custo das mercadorias vendidas. A fórmula básica mostra isso: estoque inicial mais compras menos estoque final é igual ao custo do que foi vendido. Se o estoque final estiver superavaliado, o custo das vendas aparece menor e o lucro maior do que realmente corresponde; se estiver subavaliado, ocorre o contrário. Por isso um erro na mensuração dos estoques não é um detalhe de depósito: ele distorce o lucro, o patrimônio e as decisões que você toma com base nesses números.

A redução ao valor realizável líquido tem um efeito adicional: transforma uma perda latente numa perda reconhecida do período, reduzindo o lucro contábil antes mesmo de o produto ser vendido. E aqui aparece o ponto que gera mais dúvidas: a norma contábil não é a norma tributária. Em muitos países, a dedução fiscal da perda com estoques tem condições próprias, e a base de cálculo dos impostos é apurada com regras que podem diferir da contabilidade financeira. É perfeitamente possível que a sua demonstração contábil e a sua declaração de impostos contem histórias diferentes sobre o mesmo estoque. Por isso, antes de presumir que o ajuste contábil é automaticamente dedutível, analise o caso com o seu contador.

A relação com o kardex valorizado

Toda essa teoria só se torna útil se a empresa souber, a todo momento, quantas unidades tem e por quanto custo as tem. Esse é exatamente o papel da ficha de estoque valorizada, o kardex: o registro que controla as entradas, as saídas e os saldos de cada produto, em quantidades e em valores, em ordem cronológica. Com um kardex atualizado, o custo das vendas pode ser calculado pelo método que a empresa adota, como o custo médio ponderado ou o método PEPS, primeiro a entrar, primeiro a sair, que são as fórmulas de custo admitidas pela norma; também é possível detectar faltas e perdas a tempo, e revisar produto por produto se o seu valor realizável líquido ainda é superior ao custo.

Manter esse controle à mão, em cadernos ou em planilhas espalhadas, é lento e sujeito a erros, principalmente quando o número de itens cresce. Por isso muitas pequenas empresas usam um sistema de estoques que alimenta o kardex valorizado automaticamente a cada compra, venda ou devolução. Uma ferramenta como o Kardex Tauro ajuda a manter esse registro em quantidades e valores sem depender de arquivos que ficam desatualizados, de modo que o custo das vendas e o valor do estoque final saiam de uma única fonte confiável. A norma diz o que medir; um kardex bem mantido diz quanto você tem e por quanto custou.

Em resumo

A NIC 2 não é uma norma distante, escrita para grandes corporações. Ela diz a qualquer negócio que vende ou produz bens o que incluir no valor do seu estoque: o custo de aquisição, o custo de transformação e os custos necessários para deixar o produto pronto para vender. Diz também o que deve ficar de fora: desperdícios anormais, armazenagem desnecessária, gastos administrativos e de venda. E pede um exercício de honestidade a cada fechamento: comparar o custo de cada estoque com o seu valor realizável líquido e reconhecer de imediato as perdas que já são previsíveis. Esse exercício protege o seu lucro de surpresas, melhora a qualidade das suas demonstrações contábeis e dá uma base sólida para pedir crédito, definir preços e tomar decisões. Domine esses conceitos, apoie-se num bom controle de estoques, com ferramentas como o Kardex Tauro, e deixe a técnica contábil trabalhar a favor do seu negócio.

Este artigo é educativo e não substitui a orientação do seu contador.

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