Estoque para óticas: armações, lentes e garantias sem perdas

Estoque para óticas: armações, lentes e garantias sem perdas
Um cliente entra na ótica no meio da manhã. Experimenta três armações diante do espelho, decide por uma do expositor e paga no caixa. Parece uma venda perfeita, e é: o problema começa depois. A armação que acabou de sair era a única unidade à vista daquela referência, e ninguém anotou que a vitrine ficou com um vazio. Três semanas depois, outra pessoa chega pedindo o mesmo modelo, na mesma cor e no mesmo tamanho. O vendedor confere e descobre que não há nada para mostrar, ou que só restou o modelo em outra cor ou em outro tamanho. A vitrine mentiu: parecia que o negócio tinha o produto e, na verdade, estava sem ele havia dias.
Essa cena se repete nas óticas muito mais do que parece, porque o estoque delas tem uma particularidade: é feito de peças únicas, caras e muito parecidas entre si, que circulam o tempo todo entre a vitrine, o balcão, o laboratório e o rosto do cliente. Uma armação não é um prego nem um saco de parafusos: é um produto que se confunde com outros dez se não for bem registrado, que danifica se for manuseado sem cuidado e cujo valor pode se perder por completo com um único descuido. Este artigo organiza os tipos de item que convivem em uma ótica, explica por que armações e garantias se perdem e deixa regras práticas para que o controle não dependa da memória de ninguém.
Por que o estoque de uma ótica é um caso à parte
Em um negócio de estoque tradicional, quase todos os itens são iguais entre si: cem unidades do mesmo produto são intercambiáveis e qualquer uma serve para cobrir uma venda. Em uma ótica acontece o contrário. Uma armação vendida sai com um cliente específico, e o que resta daquela referência pode ser de outra cor ou de outro tamanho; uma lente é fabricada para uma grau exato e não serve para outra pessoa; e a garantia depende de saber qual peça, com qual número, foi entregue a quem.
E ainda tem o dinheiro. As armações de marca e as lentes especiais estão entre os produtos mais caros por unidade que um pequeno comércio pode ter, e boa parte desse valor passa meses exposto sem girar. Quando uma peça assim se perde, se troca ou se danifica, não é uma falta pequena: é um pedaço grande do lucro do mês que desapareceu. Por isso o controle na ótica não é assunto de escritório, e sim uma rotina do balcão, do laboratório e da vitrine.
Os tipos de item que convivem em uma ótica
Antes de contar qualquer coisa é preciso distinguir o que está sendo contado. Na mesma ótica convivem pelo menos seis tipos de item, e cada um é controlado de um jeito diferente. Misturá-los é a primeira causa de os números não fecharem:
| Tipo de item | O que é | Como é controlado |
|---|---|---|
| Armação de exibição | A que está na vitrine ou no giratório, à vista do cliente | Define-se se é estoque vendável ou amostra; se for vendida, repõe-se no mesmo dia |
| Armação em caixa (estoque) | A que está guardada, sem exposição | Por referência, cor e tamanho: cada combinação é um item distinto |
| Lente acabada de estoque | Monofocais comuns dos graus mais vendidos | Por grau (esférico, cilíndrico, eixo) e tratamento, em unidades |
| Lente de pedido especial | Progressivas, bifocais ou de alto índice mandadas fabricar | Como pedido, não como estoque: data, prazo do laboratório, chegada e aviso |
| Cristal de amostra | O que serve para demonstrar tratamentos e filtros | Como amostra: não é estoque vendável; repõe-se se danificar |
| Insumos | Colírio de teste, parafusos, plaquetas, cordões, flanelas | Consumo básico: compra por ponto de mínimo ou contagem rápida |
A vitrine mente se você não decide o que é cada armação
O erro mais caro de uma ótica é tratar a armação da vitrine como se não fosse estoque ou, pior, como se fosse estoque e amostra ao mesmo tempo. A que está exposta não é necessariamente a que você vende: é a que o cliente vê. Se não se decide qual papel ela cumpre, a contagem nunca fecha, porque a mesma peça conta como exibição, como estoque e como venda dependendo do dia.
A regra é tomar uma decisão por linha e mantê-la. Se a vitrine é estoque vendável, a armação exposta é mais uma unidade do estoque: ao vendê-la, ela é baixada e reposta com outra igual da caixa, se existir, ou é gerada a compra para a referência não ficar com um vazio. Se a vitrine é de amostras, a armação não se vende: ela cumpre um papel comercial, é marcada como amostra e, se o cliente se apaixonar por ela, vende-se a unidade da caixa e a amostra é reposta com outra igual. O que não se pode fazer é vender a amostra, não repô-la e deixar a vitrine mentindo para o próximo cliente.
Referência, cor e tamanho: cada combinação é um item distinto
Uma armação metálica preta no tamanho 52 não é o mesmo item que o mesmo modelo em preto no tamanho 54, nem que a dourada no 52. Soam parecidas, parecem parecidas e até dividem a mesma caixa, mas para o estoque são três produtos diferentes: cada uma tem seu preço, seu estoque e sua demanda próprios. Um registro que só anota o modelo vai dizer que há doze unidades da referência, mas não quantas são da cor e do tamanho que o cliente está pedindo agora.
A maioria das armações traz gravado na haste a referência e o tamanho (por exemplo, 52-18-140), e muitas incluem um número de série ou de lote. Esse dado é a chave do controle: a identificação mínima de cada peça é referência mais cor mais tamanho, e com isso se monta o código usado na venda, na contagem e na garantia. Manter o registro por combinação, como o Kardex Tauro faz, evita a pergunta mais desconfortável do balcão: saber que o modelo existe, mas não saber em qual cor ou tamanho ele ainda está.
Garantias: se o serial não ficou registrado, não há garantia a acionar
A armação é vendida com a garantia do fabricante e, muitas vezes, com a garantia estendida da própria ótica. Quando o cliente volta com a haste quebrada ou com o revestimento danificado, o primeiro dado que o fornecedor pede é qual peça exata foi vendida: número de série, referência e data. Se nada disso ficou registrado na venda, a reclamação cai, e a ótica acaba absorvendo um custo que não era dela, ou negando ao cliente um direito que ele de fato tinha.
Registrar a garantia não leva um minuto se for feito no momento da venda. Ficam anotados estes dados:
- Data da venda e número da nota fiscal ou da remessa.
- Referência completa, cor, tamanho e número de série da armação.
- Nome e telefone do cliente, e qual lente foi montada naquela armação.
- Prazo da garantia e sua data-limite, para saber se a reclamação ainda é válida.
Com esse registro, quando o cliente liga depois de um mês, três meses ou um ano, a resposta é imediata: sim, esta peça foi vendida em 14 de março, o serial confere com o lote que o fornecedor cobre e a garantia vence em setembro. Sem o registro, a resposta depende da memória do vendedor que atendeu aquela venda, e essa memória costuma estar em outro emprego.
Pedidos especiais de lentes: controlam-se como pedidos, não como estoque
Lentes progressivas, bifocais, de alto índice ou com filtros especiais não são compradas para ficar na caixa: são mandadas fabricar contra o pedido do cliente. Por isso não devem entrar no estoque como se fossem mercadoria disponível: são um pedido em trânsito, com um cliente esperando e um laboratório trabalhando. O problema típico não é o pedido não chegar, é ele chegar, alguém guardá-lo numa gaveta ou numa prateleira do laboratório e ninguém avisar o cliente. Ele liga depois de vinte dias, o pedido está na loja há dez, e a ótica fica parecendo irresponsável.
Cada pedido especial precisa de um acompanhamento mínimo, com estes dados:
- Data do pedido e laboratório para o qual foi enviado.
- Prazo prometido de entrega, para saber quando começar a se preocupar.
- Grau, tipo de lente e armação em que será montada, se for o caso.
- Dados do cliente, valor pago ou sinalizado e forma de contato.
- Data de chegada e data em que o cliente foi avisado.
O acompanhamento tem dois momentos críticos: a chegada e o aviso. Quando o pedido chega, ele é conferido contra o pedido original (grau, marca, tratamento) e a ligação para o cliente é agendada para o mesmo dia. Se o cliente não o retira em uma semana, segundo aviso. Um pedido que ninguém avisa é dinheiro parado e má reputação; um pedido com acompanhamento é uma venda que se fecha sozinha.
A contagem semanal da vitrine: a área de maior perda
Se é preciso escolher um só lugar para contar toda semana, esse lugar é a vitrine. É a área de maior perda de uma ótica porque as peças expostas circulam sem nota: saem para prova de montagem, vão ao laboratório para montar uma amostra, são emprestadas para uma foto, caem e danificam, ou um cliente distraído sai usando uma armação. Tudo isso acontece no espaço mais visível da loja e quase nunca deixa registro.
A contagem da vitrine não leva mais de quinze minutos se for feita com método:
- Imprima ou abra a lista das referências que deveriam estar expostas, com cor e tamanho.
- Percorra a vitrine e o giratório marcando o que está, no lugar que lhe corresponde.
- Anote o que falta e procure no laboratório e nas caixas antes de declarar perda: muitas peças aparecem na oficina.
- Confira se as armações que continuam lá são as corretas ou se alguém colocou uma peça de outra referência no vazio.
- Registre as faltas reais e decida: repor da caixa, pedir ao fornecedor ou baixar como perda para o estoque dizer a verdade.
Essa meia hora semanal é o que impede a vitrine de virar um buraco silencioso: uma referência que falta e ninguém repõe, um serial que se perdeu e não pode mais ser reclamado, um tamanho que o cliente pediu e não existia.
Regras para a ótica não perder dinheiro
- Cada armação é identificada por referência, cor e tamanho, e o número de série é guardado quando ela tem um.
- Decide-se por linha se a vitrine é estoque ou amostra, e as amostras são marcadas como tal.
- Na venda, registram-se serial, referência, data e cliente: é a base de toda garantia.
- Pedidos especiais levam data do pedido, prazo do laboratório, chegada e aviso ao cliente.
- A vitrine é contada uma vez por semana, sem exceção.
- Toda armação que sai da exposição é reposta no mesmo dia ou tem sua compra gerada.
Uma ótica não perde dinheiro porque seus produtos são caros, mas porque eles se confundem: a armação da vitrine com a da caixa, uma cor com outra, um tamanho com outro, um serial com nenhum. Diferenciar cada peça por referência e número de série, tratar os pedidos especiais como o que eles são e contar a vitrine toda semana é um trabalho de disciplina diária, e esse trabalho fica leve quando o registro é feito por um sistema pensado para isso: o controle por serial e por referência, como o do Kardex Tauro, cabe em uma ótica porque nela cada unidade é diferente, cara e tem história própria. Quem mantém esse controle sabe o que tem, o que vendeu, o que deve chegar e o que está na garantia. Quem não mantém descobre o vazio na vitrine quando o cliente já está pedindo o produto.