Produzir sob encomenda ou para estoque: como decidir (MTO vs MTS)

Produzir sob encomenda ou para estoque: como decidir (MTO vs MTS)

Toda oficina e toda fábrica pequena chega um dia à mesma encruzilhada. Um cliente pede um produto e você decide quando fabricá-lo: quando o pedido chega, ou antes, para tê-lo pronto na prateleira. No jargão da manufatura, essas duas formas de trabalhar têm nome: make to order (MTO), produzir sob encomenda, e make to stock (MTS), produzir para estoque. Não é uma discussão teórica: a escolha define quanto dinheiro você tem parado em inventário, quanto tempo demora sua entrega, qual margem você consegue cobrar e, no fim do mês, se a oficina trabalha em ritmo constante ou aos trancos.

O problema é que quase ninguém aprende a decidir isso de forma ordenada. Produz-se como sempre se produziu, ou muda-se de estratégia por puro instinto quando chega um mês ruim. Este artigo propõe outra coisa: um critério simples, aplicado produto por produto, para saber quando vale a pena produzir sob encomenda, quando vale a pena produzir para estoque e como combinar os dois sem transformar o almoxarifado em um cemitério de produto acabado.

O que significa produzir sob encomenda (MTO)

Em um esquema make to order você não fabrica nada até o cliente confirmar a compra. A ordem de produção nasce de uma venda: o cliente pede, você produz e entrega. O produto nunca espera em uma prateleira; sai da oficina direto para quem o encomendou.

As vantagens são claras. O risco de estoque é mínimo, porque ninguém produz algo que ainda não tem comprador. O produto pode ser adaptado ao cliente: medidas, acabamentos, materiais, apresentação. E como é um trabalho sob medida, o cliente costuma aceitar um preço melhor e está disposto a esperar o tempo de fabricação.

Também há custos. Seu prazo de entrega passa de tenho hoje para entrego em dez dias, e isso tira você das compras urgentes. A capacidade da oficina fica à mercê dos pedidos: há semanas de saturação e semanas paradas, com a folha de pagamento igualmente cara nas duas. E se o pedido for cancelado no meio da produção, o trabalho já feito quase nunca pode ser vendido para outro cliente.

Exemplos típicos de produção sob encomenda:

  • Móveis sob medida e marcenaria por encomenda.
  • Confecção e uniformes por pedido, com tamanhos e logomarcas do cliente.
  • Máquinas, estruturas metálicas e trabalhos de engenharia feitos sob especificação.
  • Impressos personalizados, etiquetas e embalagens com o design do próprio cliente.

O que significa produzir para estoque (MTS)

Em make to stock você produz antecipadamente, empurrando produto acabado para o almoxarifado, e vende a partir do estoque. A ordem de produção não nasce de um cliente, mas de um nível de estoque: quando o inventário cai abaixo de certo ponto, você volta a produzir para repor.

A grande vantagem é a entrega imediata. O cliente que chega hoje sai hoje com o produto, e isso vale muito em itens de compra repetitiva, onde quem não tem estoque perde a venda. Você também pode produzir em lotes grandes e constantes, aproveitar melhor a capacidade, comprar matéria-prima em volume e manter a equipe ocupada nas semanas fracas de pedidos.

O custo é o estoque. Produto acabado parado é dinheiro dormindo: já consumiu matéria-prima, mão de obra e espaço, e só vira dinheiro quando é vendido. Se não vende no ritmo previsto, envelhece, estraga, sai de moda ou fica obsoleto, e você acaba liquidando abaixo do custo ou jogando fora.

Exemplos típicos de produção para estoque:

  • Pão, alimentos e bebidas de consumo diário.
  • Embalagens e recipientes genéricos que qualquer cliente usa da mesma forma.
  • Itens padrão de catálogo que sempre vendem igual, sem personalização.

MTO vs MTS lado a lado: a tabela comparativa

Antes de entrar em detalhes, vale a pena ver as duas estratégias uma ao lado da outra. Nenhuma é melhor no abstrato: cada linha mostra onde uma ganha e onde a outra paga.

AspectoMTO (sob encomenda)MTS (para estoque)
Prazo de entrega ao clienteDias ou semanas: é preciso produzir depois de receber o pedido.Imediato: o produto já está pronto e disponível para entrega.
Risco de estoqueBaixo: você não produz nada sem comprador confirmado.Alto: o produto acabado pode não vender e virar estoque morto.
Uso da capacidadeIrregular: picos quando chegam pedidos e vazios quando não chegam.Nivelado: você produz em ritmo planejado e mantém a equipe ocupada.
Margem por unidadeCostuma ser melhor: o cliente paga pela personalização e pela espera.Mais apertada: você compete por preço com quem tem o mesmo produto pronto.
Exemplos típicosMóveis sob medida, confecção por encomenda, máquinas, impressos personalizados.Pão e bebidas, embalagens genéricas, produtos padrão de catálogo.
Quando escolherProduto caro, perecível, personalizável ou de demanda incerta.Produto barato de produzir, de venda constante e que o cliente não espera.

Leia a tabela linha por linha e você verá o padrão: o MTO resolve o problema do estoque e o MTS resolve o problema da entrega. Por isso a resposta quase nunca é escolher uma única estratégia para a oficina inteira.

A verdade na prática: quase todo mundo usa um híbrido

O erro mais comum dos pequenos fabricantes é se sentirem obrigados a escolher um lado. Nós somos sob encomenda. Nós somos de catálogo. Na prática, quase qualquer negócio de manufatura saudável acaba usando as duas estratégias ao mesmo tempo, porque tem dois tipos de produto no mesmo portfólio.

Pense em uma marcenaria. O mesmo negócio pode produzir para estoque sua linha básica de cadeiras e mesas dobráveis, que se vendem sozinhas o ano todo, e produzir sob encomenda os designs especiais, os móveis de escritório com medidas incomuns e os trabalhos com acabamento personalizado. A linha básica dá fluxo de caixa e ocupação constante; a linha sob encomenda dá margem e diferencia o negócio da concorrência.

O mesmo vale para uma confecção: os uniformes padrão que todas as empresas pedem são costurados para estoque nos tamanhos comuns, enquanto os pedidos com logomarcas bordadas, tecidos especiais ou tamanhos fora da faixa são feitos sob encomenda. Aplicar MTS ao que sempre vende e MTO ao que é especial não é indecisão: é exatamente a estratégia certa.

O truque está em decidir com critério onde uma estratégia termina e onde a outra começa. É para isso que servem as duas regras a seguir.

Como decidir produto por produto (e não por empresa)

Esqueça o rótulo do seu negócio e olhe cada produto do seu portfólio separadamente, porque a resposta muda de produto para produto. Faça estas perguntas em ordem e deixe que as respostas te levem para uma estratégia ou outra:

  1. O cliente espera o tempo de produção? Se o comprador daquele produto precisa levá-lo hoje ou nesta semana, não há discussão: tem que ter estoque, é MTS. Se o cliente aceita esperar porque o produto é feito sob medida, você pode operar sob encomenda.
  2. O produto sempre vende igual? Se é um item padrão que ninguém personaliza e que vende o ano todo sem mudanças, produzir para estoque é o natural. Se cada venda pede algo diferente, o sob encomenda evita acumular peças que ninguém mais vai querer.
  3. É caro para produzir ou para manter? Um produto com matéria-prima cara, que ocupa muito espaço ou que exige capital de giro castiga o estoque parado. Nesse caso, o sob encomenda protege seu caixa.
  4. É perecível ou de vida curta? Alimentos, produtos com data de validade, moda e itens que mudam de versão a cada ano só devem ser produzidos para estoque em quantidades conservadoras; o resto, sob encomenda.
  5. É personalizável? Se o cliente valoriza um produto adaptado a ele, com suas medidas, cores ou gravações, o MTO permite cobrar por esse valor. Um produto genérico, por outro lado, não tem essa vantagem e compete por disponibilidade.

Quando você terminar o percurso, cada produto da sua lista terá uma resposta. É normal que o resultado seja misto: uns pedem estoque e outros pedem encomenda. Bem-vindo ao híbrido.

Como montar o híbrido sem que vire bagunça

O híbrido só funciona se cada produto tiver regras claras de operação. A receita prática tem três partes.

Primeiro, defina seu catálogo base. São os produtos que sempre vendem e que você decide manter em estoque. Para cada um, fixe um ponto de reposição: a quantidade mínima de estoque que, ao ser atingida, dispara uma nova ordem de produção. Enquanto o consumo for estável, esse ponto se calcula com o consumo diário médio multiplicado pelos dias que você leva para repor, mais uma margem de segurança para os imprevistos.

Segundo, defina seus especiais. Tudo o que não está no catálogo base é produzido sob encomenda. Para isso você precisa de duas coisas: um preço cotado antecipadamente e um prazo de entrega prometido realista. O erro típico é prometer para um especial o prazo do catálogo base e depois não cumprir; o prazo prometido deve incluir compra de materiais, fabricação e controle de qualidade, sem otimismo.

Terceiro, dê data a todos os pedidos. Um especial sem data de entrega comprometida vira um pendente eterno que desorganiza a planta. Agende a ordem de produção no momento em que confirmar a venda: assim a capacidade fica reservada e o cliente sabe exatamente quando recebe.

Os dois custos que você precisa conhecer

A decisão entre estoque e encomenda se resume, no fim das contas, a comparar dois custos que são assimétricos:

SituaçãoO que custaComo dóiComo evitar
Ficar sem estoque de um produto básicoVendas perdidas e clientes que vão para a concorrência.Dói nas vendas e na reputação, mas é reversível: você repõe e o cliente volta.Ponto de reposição bem calculado e revisado quando o consumo muda.
Produzir especiais que não vendemMatéria-prima, mão de obra e espaço parados em produto que ninguém pediu.Dói no caixa: o dinheiro ficou preso em estoque morto que precisa ser liquidado ou descartado.Produzir especiais só com pedido confirmado e com sinal quando o material é caro.

Leia bem a segunda linha: o estoque morto é o erro caro. Ficar sem um básico se resolve com uma semana de produção; um lote de especiais sem venda pode levar meses para sair, e muitas vezes sai com prejuízo. Por isso a regra de ouro do pequeno fabricante é ser generoso com o estoque do que vende com certeza e ser disciplinado com o sob encomenda em todo o resto.

O que revisar toda semana

Um híbrido não se sustenta sozinho: ele se sustenta com três números que você deve revisar toda semana. O primeiro é o nível dos produtos do catálogo base, para disparar as reposições antes de chegar a zero. O segundo é a idade do estoque: qualquer produto acabado parado há mais de trinta ou sessenta dias é sinal de que recebeu MTS demais e MTO de menos. O terceiro é a lista de pedidos sob encomenda pendentes, com as datas prometidas, para que nenhum especial fique esquecido em um canto da planta.

Se você levar esses três números em uma planilha ou no software com que gerencia seu kardex, como o Kardex Tauro, o híbrido fica quase automático: o estoque é reposto quando deve e os pedidos são fabricados quando foram prometidos. A disciplina de revisá-los toda semana é o que separa uma oficina que controla seu inventário de uma que apenas reage às urgências.

Decida por produto, não por moda

Nenhuma estratégia de produção é superior à outra: elas são ferramentas para problemas diferentes. Produza para estoque o que sempre vende, o que o cliente não espera e o que é barato de manter; produza sob encomenda o caro, o perecível, o personalizável e o de demanda incerta. A maioria das oficinas precisa das duas respostas ao mesmo tempo, e tudo bem: o híbrido bem operado ganha de qualquer um dos extremos.

Para o esquema funcionar, a ordem de produção precisa viajar limpa desde o momento em que é decidida até o despacho: o que se fabrica, quanto, com quais materiais e contra qual pedido. Um software como o Kardex Tauro ajuda exatamente aí: ele registra o kardex de matéria-prima e de produto acabado e, ao gerar uma ordem de produção, baixa automaticamente os insumos do estoque, de modo que tanto o lote para estoque quanto o especial sob encomenda deixem uma rastreabilidade clara do que saiu do almoxarifado. Com essa informação à vista, decidir entre produzir sob encomenda ou produzir para estoque deixa de ser um palpite e vira uma decisão de números.

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