A contabilidade na Idade Média: mosteiros, feudos e feiras

A contabilidade na Idade Média: mosteiros, feudos e feiras

Entre a queda de Roma e o Renascimento, a Europa manteve as suas contas de um jeito muito diferente do nosso. Quando o Império Romano do Ocidente desmoronou ao longo do século V, não desapareceram apenas as cidades, as estradas e o comércio de longa distância: também se desfez a grande máquina administrativa que durante séculos registrara impostos, censos e gastos. Durante quase um milênio a contabilidade não deixou de existir, mas mudou de dono, de forma e de suporte: passou dos arquivos do Estado para os mosteiros, os senhorios rurais e, mais tarde, para os mercadores que voltavam a encher de mercadorias os caminhos da Europa.

Este artigo faz parte de uma série sobre a história da contabilidade. O Renascimento — as partidas dobradas dos mercadores italianos e a obra do frei Luca Pacioli, descrita por escrito em 1494 — fica para os artigos irmãos da série. Aqui paramos antes, nos séculos em que as contas serviam para governar terras, alimentar comunidades religiosas e dar fé dos contratos das feiras.

Uma economia que se desmonetiza

Com o desaparecimento do império, o dinheiro em circulação rareou, o comércio de longa distância encolheu e a riqueza voltou a ter uma medida muito antiga, a terra. A unidade econômica da época foi o senhorio, que incluía as terras que o senhor explorava diretamente, os bosques e os pastos comuns, e as parcelas dos camponeses, que pagavam a sua permanência com rendas em espécie — grão, aves, vinho — e com dias de trabalho nas terras do senhor.

Nesse mundo, administrar era sobretudo administrar estoques. O senhor não vendia a colheita num mercado distante: consumia-a, repartia-a e guardava-a para o inverno ou para os anos ruins. Era preciso saber quanto grão havia no celeiro, quanto vinho na adega, quantos bois no estábulo e quais ferramentas estavam em bom uso. Essa memória ficava a cargo dos administradores de cada domínio, que prestavam contas ao senhor uma ou duas vezes por ano, muitas vezes oralmente ou com paus de contagem com entalhes, um sistema que o tesouro inglês usaria por séculos.

As villas carolíngias e o Capitulare de villis

O exemplo mais célebre dessa contabilidade senhorial posta por escrito é carolíngio. Por volta do ano 800, Carlos Magno governava um império que se estendia do mar do Norte ao norte da Itália, e costumava governá-lo por meio de capitulares: decretos divididos em capítulos que regulavam desde a guerra até a administração dos seus domínios. Uma delas, conhecida como Capitulare de villis, é uma joia para a história da administração: uma longa lista de instruções dirigidas aos administradores das villas reais, as propriedades agrícolas do rei espalhadas por todo o império.

A capitular ordenava que cada villa fosse perfeitamente conhecida e equipada. Pedia que se inventariassem as terras cultivadas e os bosques, o gado de toda espécie — bois, cavalos, ovelhas, porcos, aves de criação —, os arados, as ferramentas, os moinhos e as colmeias, e que se declarasse quanto se semeava, quanto se colhia e quanto se produzia. Cada administrador precisava conhecer até o último detalhe do que o seu domínio produzia e guardava, para que o soberano soubesse a qualquer momento o que possuía e o que podia esperar de cada uma das suas propriedades.

Para esta história, o documento vale por duas razões: transforma o inventário num dever oficial do administrador e mostra a contabilidade medieval inicial como um exercício sobre coisas — terra, gado, grão, ferramentas — muito mais do que sobre dinheiro: um inventário físico ordenado por um imperador.

Mosteiros: os grandes administradores de estoques

Se os senhorios levavam as contas da terra, os mosteiros levaram algumas das contas mais completas da Alta Idade Média. As abadias acumularam terras, vinhedos, moinhos e oficinas graças às doações de reis e nobres, e a Regra de São Bento, que mandava os monges trabalhar e se sustentar, tornou-os administradores natos. Um grande mosteiro era, na prática, uma empresa agrícola e artesanal: era preciso alimentar a comunidade e os hóspedes e cuidar para que nada faltasse, porque uma despensa vazia não se enchia comprando na loja da esquina.

Essa responsabilidade recaía sobre ofícios concretos. O celeireiro cuidava da comida e dos utensílios e devia prestar contas da sua gestão; o abade supervisionava o conjunto e respondia diante dos doadores e das autoridades eclesiásticas. Para sustentar essa administração, os mosteiros contaram com os seus escribas: ao lado dos livros religiosos, os scriptoria copiaram e conservaram documentos muito práticos, como os cartulários que reuniam as cópias dos títulos de propriedade e das doações, os polípticos que descreviam lote por lote as terras da abadia, os foros que cada camponês pagava e os dias de trabalho devidos, e os registros de dízimos, de receitas e de despesas revisados ano após ano.

Reinos: o Domesday Book e os pipe rolls

Quando os reinos cresceram, também quiseram saber com exatidão o que possuíam. O exemplo mais impressionante veio da Inglaterra de Guilherme I: em 1085, o rei, que havia conquistado o reino em 1066, ordenou que os seus enviados percorressem cada condado e levantassem um registro de todas as propriedades do reino. O resultado, concluído em 1086, é conhecido como Domesday Book, o livro do Dia do Juízo, porque não admitia apelação contra o que dizia.

O Domesday Book é um inventário na escala de um reino inteiro: senhorio por senhorio, anotava quem o possuía, quem o possuíra antes da conquista, quantas juntas de bois o trabalhavam, quais camponeses e que gado viviam nele, quantos moinhos, bosques e prados continha, e quanto valia então e quanto valera. Escrito em pergaminho e conservado em dois volumes, continua sendo hoje uma fonte essencial para conhecer a Inglaterra medieval.

O mesmo impulso de controle produziu, algumas décadas depois, uma das séries contábeis mais notáveis da história: os pipe rolls do tesouro inglês. A cada ano, as contas da coroa eram costuradas num longo rolo de pergaminho que se enrolava como um tubo, e nele ficavam anotadas as receitas e as despesas do rei: os foros das terras reais, as multas dos tribunais, os pagamentos a oficiais e fornecedores. O rolo mais antigo conservado data de 1130 e, desde meados do século XII, a série é praticamente contínua.

Guildas e feiras: o comércio volta a anotar

A partir dos séculos XI e XII, a economia europeia se reanimou: as cidades cresceram, os caminhos e os portos recuperaram o movimento e, com eles, voltaram o dinheiro e a necessidade de manter contas. Nas cidades, os artesãos de cada ofício se organizaram em guildas, também chamadas de confrarias ou corporações de ofício. As guildas controlavam a qualidade do que se produzia e se vendia, fixavam preços e salários, regulavam a aprendizagem — do aprendiz ao oficial e daí ao mestre — e mantinham um cofre comum para ajudar os doentes, as viúvas e os enterros dos seus membros; tudo isso exigia listas de filiados, regulamentos escritos e contas do fundo coletivo.

Sobre essa base urbana floresceram as grandes feiras de Champagne, nos séculos XII e XIII. Quatro vilas da região — Troyes, Provins, Bar-sur-Aube e Lagny — acolhiam um ciclo de feiras que se sucediam ao longo do ano e transformavam a zona no grande mercado da Europa ocidental. Ali se encontravam os mercadores italianos, que chegavam com especiarias, sedas e conhecimentos financeiros, e os mercadores flamengos e do norte da Europa, que traziam panos e lãs. As vendas eram por atacado e muitas vezes a prazo, e como ninguém queria viajar com sacos de moedas por caminhos perigosos, as dívidas eram anotadas, compensadas entre feiras sucessivas e pagas em datas e lugares combinados. Oficiais especializados davam fé dos contratos e resolviam as disputas: a feira funcionava como uma grande câmara de compensação do crédito europeu.

Números novos para contas novas

Contar na Europa medieval não era fácil. A numeração romana servia para anotar, mas era torpe para calcular, e as contas eram quase sempre feitas com o ábaco, um tabuleiro com fichas que se moviam por colunas de valor. Em 1202, um matemático de Pisa chamado Leonardo Fibonacci publicou o Liber Abaci, um livro de cálculo que apresentava aos europeus os algarismos indo-arábicos, com a sua cifra para o zero e o seu sistema de posição, que tornava muito mais fáceis a soma, a subtração, a multiplicação e a divisão. Fibonacci não inventou esse sistema, mas a sua obra foi decisiva para difundi-lo entre os mercadores, que o adotaram de forma gradual durante os séculos XIII e XIV. Para a contabilidade, a mudança foi enorme: finalmente era possível anotar o zero e fazer contas longas sem perder o fio.

Ao lado dos números novos apareceu um instrumento financeiro decisivo: a letra de câmbio, um documento em que um mercador ordenava o pagamento de uma soma, em outra cidade e muitas vezes em outra moeda, a um terceiro ou a quem apresentasse o documento. A letra permitia viajar com papel em vez de metal, adiar pagamentos de uma feira para a seguinte e evitar o risco dos caminhos. Como a Igreja desaprovava a usura, o crédito era apresentado com frequência como um câmbio de moedas entre praças distintas, e essa forma financeira, nascida nas feiras, tornou-se um dos motores do comércio europeu.

Partidas simples: o jeito dominante de manter contas

Durante toda a Idade Média, o jeito habitual de manter os livros foi o das partidas simples, em que cada operação é anotada uma única vez, como receita ou despesa, sem o princípio do registro duplo que caracteriza as partidas dobradas. O mercador típico trabalhava com vários livros: um memorial ou borrão onde tudo era anotado na hora, um diário onde as operações eram copiadas em ordem de data e um razão onde se abria uma conta para cada pessoa — clientes, fornecedores, sócios — anotando o que cada uma dava e recebia. Essa contabilidade respondia a uma pergunta muito prática, quanto tenho e a quem; as partidas dobradas acrescentariam outra: de onde vem o meu lucro?

Vale fechar com uma precisão: os primeiros livros que alguns historiadores consideram escritos em partidas dobradas aparecem por volta de 1340 em Gênova, nos registros dos massari, os funcionários encarregados do tesouro da cidade. São uma exceção precoce e brilhante: a generalização do sistema, a sua adoção pelos grandes mercadores italianos e a sua primeira descrição impressa, na Summa de Pacioli, de 1494, pertencem já ao Renascimento e são contadas nos artigos irmãos desta série.

O que cada instituição medieval registrava

Para ordenar o percurso, esta tabela resume o que cada instituição da época anotava, em que suporte e com que finalidade.

InstituiçãoO que registravaSuporte
Villas reais carolíngias (por volta do ano 800)Terras, bosques, gado, ferramentas, moinhos e colheitas das propriedades do reiCapitulares e registros das villas, em pergaminho
MosteirosTerras, foros e obrigações dos camponeses (polípticos), dízimos, receitas, despesas, despensa e adegaCartulários, polípticos e livros de contas em pergaminho
Coroa inglesa, Domesday Book (1086)Senhorios, proprietários, gado, moinhos, bosques e valor das terras do reinoGrande manuscrito de pergaminho, dois volumes
Tesouro inglês, pipe rolls (desde 1130)Receitas e despesas anuais da coroa: foros, multas, pagamentosRolos de pergaminho costurados e enrolados
Guildas de ofícioQualidade dos produtos, aprendizes, filiados e contas do cofre comumRegulamentos e livros das guildas
Feiras de Champagne (séculos XII e XIII)Transações, dívidas e créditos entre mercadoresRegistros das feiras e letras de câmbio
Município de Gênova (por volta de 1340)Contas dos funcionários do tesouro públicoLivros dos massari

Quem hoje abre um livro de inventários ou confere o estoque do seu depósito repete, sem saber, um gesto com mais de mil anos: o administrador carolíngio que contava os seus bois, o celeireiro que inventariava a despensa do mosteiro, o escriba do Domesday Book e o notário da feira de Troyes respondiam à mesma pergunta que qualquer negócio atual faz: o que tenho, onde está, quanto vale e o que me falta?

O que mudou foi apenas a ferramenta. O que então se anotava em pergaminho com pena de ave, hoje se registra em segundos com um programa de estoques. Um software como o Kardex Tauro permite a um negócio atual manter o controle das suas existências — entradas, saídas e contagens — com a mesma vocação de ordem que animou aqueles escribas medievais, mas sem depender da memória nem de pilhas de papéis. A contabilidade mudou de suporte; a necessidade que a criou, não.

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