A contabilidade no Renascimento: feiras, letras de câmbio e casas comerciais

A contabilidade no Renascimento: feiras, letras de câmbio e casas comerciais

Entre os séculos XV e XVI, o comércio europeu mudou de escala. As rotas do Mediterrâneo e do Atlântico ficaram mais densas, as mercadorias viajaram mais longe e o dinheiro deixou de ser apenas meio de troca para se tornar um instrumento que se empresta, se troca, se segura e se investe. Nesse mundo, manter livros deixou de ser mania de mercadores organizados: tornou-se técnica indispensável para governar negócios que atravessavam fronteiras, moedas e prazos. Este artigo não é a biografia de ninguém: Pacioli e Datini já foram tratados neste blog e aqui aparecem apenas de passagem. O protagonista é o cenário: as feiras de pagamento, a letra de câmbio e as grandes casas comerciais que transformaram a contabilidade em sistema.

As cidades-Estado italianas: um laboratório financeiro

O Renascimento mercantil foi, antes de tudo, uma história italiana. Veneza, Florença, Gênova e Milão não formavam um reino unificado, mas um mosaico de cidades-Estado independentes que competiam entre si e, de quebra, inovavam. Veneza dominava o comércio com o Oriente: especiarias, seda, algodão e pedras preciosas chegavam aos seus cais e eram redistribuídos por toda a Europa. Gênova, rival marítima de Veneza, controlava boa parte do tráfego do Mediterrâneo ocidental e era potência financeira de primeira linha. Florença especializou-se na banca e nos panos de lã, sem ter porto próprio. Milão destacava-se pelas armas, pelos arreios e pela metalurgia, além de seus banqueiros.

A ausência de um poder central que ditasse as regras favoreceu o costume mercantil: os usos do comércio eram respeitados de praça em praça, os tribunais de mercadores resolviam as disputas com rapidez e os livros de contas bem escriturados eram admitidos como prova. Ao mesmo tempo, o mercador mudou de ofício. Já não viajava sempre com suas cargas: tornou-se sedentário e passou a dirigir por correspondência uma rede de fatores, agentes e correspondentes. Para governar à distância, precisava saber, a qualquer momento, quanto tinha, quanto devia, quanto lhe deviam e o que esperar de cada viagem. Essa necessidade explica o auge da aritmética comercial, ensinada nas escolas de ábaco aos filhos dos mercadores, e o refinamento crescente dos livros de contas.

As feiras: o calendário de pagamentos da Europa

As feiras foram a grande máquina de pagamentos da Europa renascentista. Em espírito e em técnica, descendiam das feiras de Champagne, que no auge medieval haviam reunido no norte da França tecelões flamengos, mercadores italianos e compradores de meia Europa. Quando aquelas feiras declinaram no século XIV, outras praças assumiram o testemunho. No século XV, Lyon tornou-se a capital das feiras de pagamento: até quatro reuniões anuais, com salvo-condutos, privilégios reais e tribunais próprios, para as quais convergiam banqueiros de Florença, de Gênova, da Suíça e da Alemanha.

Em Lyon não se vendiam apenas mercadorias: sobretudo, liquidavam-se dívidas. Os comerciantes de toda a Europa sacavam suas letras de câmbio com vencimento na feira e, chegada a data, os banqueiros e seus agentes sentavam-se para compensar. O que Pedro devia a João e João devia a Pedro anulava-se mutuamente, e só o saldo final era pago em moeda, quase sempre um valor pequeno. Essa técnica, chamada compensação, poupava enormes transportes de metal: era preciso pouco dinheiro para movimentar muito crédito. Se o saldo não era pago em espécie, cobria-se com uma nova letra contra a feira seguinte, encadeando o crédito de reunião em reunião.

Em meados do século XVI, o centro dessas reuniões mudou-se para o Franco-Condado, para Besançon, cujas feiras ficaram conhecidas como feiras de Bisenzone, e a partir de 1579 passaram a realizar-se na cidade italiana de Piacenza durante as últimas décadas do século XVI e o início do XVII. O detalhe importa: as feiras obrigaram a pensar o tempo como um calendário financeiro, com vencimentos concentrados em poucas datas ao ano e tudo isso anotado nos livros.

A letra de câmbio: pagar sem deslocar moedas

O instrumento que tornava possível aquele sistema era a letra de câmbio. Sua genialidade consistiu em separar o pagamento do lugar e do momento em que se realizava a operação. Um mercador de Bruges que devia pagar uma partida de lã em Veneza não precisava enviar sacos de moedas por caminhos e mares inseguros: comprava uma letra a um banqueiro, e este ordenava ao seu correspondente em Veneza que pagasse a soma ao beneficiário indicado na moeda local em data futura. A viagem do dinheiro transformava-se, assim, numa viagem de papéis, muito mais barata e segura.

Na sua forma clássica, a letra envolvia quatro partes: quem a sacava, quem devia pagá-la, quem a cobrava e quem a havia comprado. Com o tempo, o documento tornou-se transferível por endosso, o que permitia que uma mesma letra passasse de mão em mão e saldasse várias dívidas antes do vencimento. O lucro do banqueiro não era um juro declarado, pois a usura era malvista e com frequência proibida, mas a diferença entre a taxa de câmbio pela qual comprava e pela qual vendia as moedas estrangeiras, somada ao prazo do crédito. O preço do dinheiro escondia-se, por assim dizer, no câmbio.

Para a contabilidade, a letra de câmbio foi uma revolução silenciosa: obrigava a registrar compromissos que se cumpririam em outra cidade e outro mês, em contas de letras a receber e a pagar que não correspondiam a mercadoria alguma do armazém. O negócio já não podia ser lido olhando apenas os estoques: era preciso ler os livros.

Bancos e casas comerciais: dos Médici aos Fugger

Nenhuma empresa encarna melhor a contabilidade do Renascimento que o banco dos Médici, em Florença, fundado por Giovanni di Bicci em 1397 e transformado por Cosme de Médici, na primeira metade do século XV, na maior rede financeira da Europa. Como documentou o historiador Raymond de Roover, o banco não era uma empresa única, mas uma estrutura semelhante a uma holding: cada filial europeia, de Roma a Bruges ou Londres, funcionava como companhia separada, com capital, sócios e livros de contas próprios, participada pela casa-mãe de Florença.

Cada filial escriturava suas partidas dobradas e prestava contas a Florença por correspondência regular e inspeções; o gerente, chamado fator, respondia pela sua gestão. A contabilidade servia, assim, para mais do que calcular lucros: permitia delegar sem perder o controle. O ocaso chegou no fim do século XV: em 1494, o ano em que as tropas francesas entraram na Itália, o banco iniciava sua liquidação.

No século XVI, o centro de gravidade do capitalismo europeu deslocou-se para o norte. Em Augsburgo, a casa Fugger, fundada no fim do século XIV por Hans Fugger, tornou-se com Jakob Fugger, chamado o Rico (1459-1525), a empresa mais poderosa do continente. Jakob aprendera contabilidade em Veneza, onde os Fugger mantinham escritório no Fondaco dei Tedeschi, e aplicou o método veneziano a um império de outro tipo: empréstimos aos Habsburgo garantidos pelas minas de prata e cobre do Tirol a partir de 1487, comércio de cobre quase monopolista e feitorias espalhadas pela Europa. Os arquivos da casa conservam os registros que mostram como ele usou as partidas dobradas para governar de Augsburgo sua rede internacional de filiais.

Seguros marítimos: o risco vira prêmio

O mar era a maior incerteza do comércio renascentista: tempestades, naufrágios, corsários e guerras podiam arruinar uma carga inteira. Para cobrir esse risco nasceu o seguro marítimo. Já em meados do século XIV se redigiam em Gênova contratos notariais de seguro; uma apólice genovesa de 1343 costuma ser citada como um dos exemplos antigos mais bem documentados, embora os historiadores discutam qual foi exatamente a primeira. Florença desenvolveu seu próprio mercado, com corretores especializados, os sensali, que procuravam seguradores para cada viagem; cada segurador assinava a apólice por uma parte do risco, daí a ideia de subscrever, e cobrava um prêmio proporcional.

O prêmio dependia da rota, da estação, do tipo de navio e do clima político: em tempos ordinários girava entre cerca de 2 % e 4 % do valor segurado, e disparava em épocas de guerra ou de pirataria. Veneza protegeu durante muito tempo seus mercadores com comboios armados, as mude, e seu mercado segurador privado desenvolveu-se mais tarde, perto do fim do século XV. O arquivo do mercador Francesco Datini, em Prato, conserva cerca de quatrocentas apólices tomadas em Pisa, Florença e Gênova no fim do século XIV: o prêmio era já um custo habitual, lançado nos livros como parte do preço da mercadoria. O risco, antes suportado em silêncio pelo comerciante, havia-se tornado um serviço mensurável e registrável.

A imprensa difunde o método veneziano

A imprensa de tipos móveis, difundida a partir de meados do século XV, deu à contabilidade algo que ela nunca tivera: manuais impressos em língua vulgar. O ponto de partida foi a Summa de Pacioli, impressa em Veneza em 1494, que incluía um tratado de partidas dobradas inspirado na prática veneziana. Depois vieram manuais italianos para o mercador comum, como os de Tagliente (1525) e Manzoni (1540); adaptações nos Países Baixos, como a que Jan Ympyn Christoffels publicou em Antuérpia em 1543; exposições em inglês como a de Hugh Oldcastle, também de 1543; e versões alemãs e francesas ao longo dos séculos XVI e XVII.

A consequência foi enorme: a técnica, que antes se transmitia de mestre a aprendiz dentro de cada casa, padronizou-se, com seu vocabulário de débitos e créditos, diários e razões fixado nos manuais e viajando com eles. Um mercador de Antuérpia e outro de Sevilha já podiam entender-se no papel, com a mesma estrutura de livros e os mesmos critérios para cada lançamento. A contabilidade deixou de ser segredo de família para se tornar um saber público e ensinável.

O livro-razão em uma casa comercial do Renascimento

Como era a contabilidade por dentro numa casa mercantil do Renascimento? Sobre o balcão do mercador repousavam, encadernados e foliados, vários livros com funções distintas. O borrador ou memorial registrava as operações do dia, tal como aconteciam e sem muita ordem. O diário descrevia-as depois uma a uma, em ordem cronológica, explicando cada negócio. E o livro-razão, o livro mastro veneziano, era o coração do sistema: cada conta ocupava um fólio de duas páginas, com o débito à esquerda e o crédito à direita, e cada lançamento cruzava-se com o seu oposto em outra conta, assinalando os fólios de ida e volta para que a corrente pudesse ser verificada. Índices alfabéticos de devedores e credores permitiam encontrar qualquer conta. Periodicamente fechavam-se os livros e fazia-se o balanço, esse fechamento de contas que transforma o conjunto do negócio numa fotografia do seu estado. Em muitas cidades, os livros eram apresentados à autoridade mercantil e tinham valor probatório perante os tribunais.

As partidas dobradas combinaram tão bem com o capitalismo comercial nascente por uma razão prática: separavam o capital do lucro e da dívida e permitiam medir o resultado de um negócio em marcha com sócios, agentes que administravam praças distantes e créditos que seriam cobrados meses depois. Os historiadores observam que elas não eram indispensáveis para calcular lucros, e que muitas casas modestas resolviam-se com registros simples; mas nas grandes empresas descentralizadas, como o banco dos Médici ou a casa Fugger, foram a ferramenta que tornava possível delegar, auditar e controlar. Contabilidade e capitalismo comercial cresceram juntos, e não por acaso.

Um panorama comparativo

Praça ou casaPrática de destaqueInstrumento ou registro contábil
Veneza (séculos XV-XVI)Comércio com o Oriente, comboios armados (mude) e mercado segurador tardioLivro-razão de duas páginas, apólices de seguro e registros de cargas
Florença: banco dos MédiciRede europeia de filiais com capital e livros própriosEstrutura de holding, livros por filial e controle por correspondência
Feiras de Lyon e BesançonLiquidação periódica das dívidas da EuropaLetras de câmbio domiciliadas, compensação de saldos e livros de feira
GênovaSeguros marítimos e altas finançasApólices notariais desde o século XIV e prêmios conforme a rota e o risco
Augsburgo: casa Fugger (século XVI)Crédito aos príncipes e comércio de cobreCartas de crédito entre feitorias e registros centrais em partidas dobradas

Do Renascimento ao inventário moderno

Do Renascimento conservamos mais do que parece. As partidas dobradas continuam a ser a base da contabilidade atual; os livros obrigatórios de hoje descendem daqueles memoriais, diários e razões; e a ideia de controlar filiais, agentes e armazéns dispersos com registros centrais nasceu nas casas comerciais dos séculos XV e XVI. Também o inventário, aquela conta das mercadorias que o mercador veneziano fechava ao fim de cada exercício, tem ali a sua raiz: saber o que existe, quanto vale e o que falta é a forma mais antiga e mais moderna de governar um negócio.

Hoje essa tarefa não se faz sobre um livro-razão encadernado, mas com ferramentas de gestão que registram cada entrada e saída de mercadorias na hora. Um programa de estoques como o Kardex Tauro é, nesse sentido, o herdeiro digital do velho razão veneziano: controla as existências, os movimentos e o valor de cada produto, para que o dono do negócio possa ver o seu armazém como o mercador do Renascimento via os seus livros, de um relance e com a certeza de que tudo fecha. A lógica é a mesma; mudaram apenas o papel e a tinta.

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