O Domesday Book e os grandes inventários da história

O Domesday Book e os grandes inventários da história

Antes das planilhas e dos leitores de código de barras, saber com exatidão quanto se tinha era uma operação solene e cara: era preciso percorrer o território, olhar o que existia, contar e deixar tudo por escrito. Durante séculos, reis, impérios, notários e empresas ordenaram grandes contagens de bens que são as antepassadas diretas do inventário físico moderno. Nenhuma foi tão famosa quanto o Domesday Book, o grande levantamento que Guilherme, o Conquistador, mandou fazer em 1086 para saber o que havia no reino da Inglaterra. A sua história, e a dos outros grandes inventários, explica por que contar o que se possui sempre foi uma das obsessões de quem governa e de quem comercia.

O que foi o Domesday Book

O Domesday Book é o manuscrito que registra o Grande Levantamento da Inglaterra, ordenado por Guilherme, o Conquistador. Segundo a Crônica Anglo-Saxônica, no Natal de 1085 o rei deliberou longamente com seu conselho em Gloucester sobre como a terra do reino estava ocupada e por que tipo de homens; depois enviou seus homens por todos os condados para descobrir quantos hides de terra havia em cada um, que terras e que gado pertenciam ao rei e quais rendas ele deveria receber a cada ano. Mandou também registrar quanta terra tinham os arcebispos, os bispos, as abadias e os condes, e o que cada proprietário possuía, tanto em terras quanto em animais, e quanto dinheiro tudo valia.

O resultado foi um registro de propriedades, senhores e valores que abrangeu quase todo o reino. Para cada propriedade anotava-se quem a tivera no tempo do rei Eduardo, o Confessor, quem a tinha então e quanto valia a sua produção em três momentos: o último dia do reinado de Eduardo, o momento em que o novo senhor a recebera e o próprio ano do levantamento, 1086. Registravam-se as terras de cultivo, os arados com seus bois, os camponeses de cada classe, os prados, as florestas, os moinhos e as pescarias. A Crônica Anglo-Saxônica resume o zelo dos recenseadores com uma frase célebre: a investigação foi tão minuciosa que não ficou de fora nem uma única pele de terra, nem uma jarda, nem mesmo um boi, uma vaca ou um porco.

O livro cobriu mais de treze mil localidades e foi conservado em dois volumes. O chamado Grande Domesday reúne a maior parte dos condados e, segundo os especialistas, parece ter sido copiado por uma única mão sobre pergaminho; o Pequeno Domesday, dedicado a Norfolk, Suffolk e Essex, é mais detalhado e chegou a anotar até o gado das granjas dos senhores. Os números serviram sobretudo aos direitos fiscais do rei, mas também ajudaram a resolver disputas sobre quem possuía qual terra vinte anos depois da conquista normanda de 1066.

Por que se chama Domesday

O nome, que vem do inglês medieval e significa literalmente Dia do Juízo, não foi usado desde o início: o manuscrito era conhecido primeiro como Liber de Wintonia, o Livro de Winchester, por causa da cidade onde ficava guardado no tesouro real. Foi no século XII que o apelido Domesday se popularizou, e o tesoureiro Ricardo FitzNeal explicou o motivo no seu Dialogus de Scaccario, escrito por volta de 1179: o povo chamava o livro de Domesday, isto é, o dia do juízo, porque as suas decisões eram inapeláveis, como as do Juízo Final. Se surgisse uma controvérsia sobre qualquer assunto nele contido e se recorresse ao livro, a sua palavra não podia ser negada nem deixada de lado sem castigo. Um inventário transformado em sentença definitiva: essa é a melhor prova da autoridade que o grande registro chegou a ter.

Como o levantamento foi organizado

A operação não foi um simples censo de habitantes: foi um programa coordenado de inspeção em campo. O reino foi dividido em circuitos, grupos de condados que recebiam a visita de comissários reais. Em cada distrito, os comissários realizavam audiências públicas nas quais faziam um questionário fixo aos homens do lugar, que respondiam sob juramento; segundo os historiadores, os júris locais eram formados metade por ingleses e metade por normandos, para que as declarações fossem o mais imparciais possível. As respostas eram conferidas e depois levadas a Winchester, onde os escribas do escritório de escrita real as resumiam e as copiavam no pergaminho definitivo. Foi, em suma, um censo de recursos feito com testemunhos jurados, circuitos de inspeção e um escritório central de redação: a mesma lógica que, nove séculos depois, seguiria qualquer grande operação de inventário.

Por que os Estados faziam inventários

Guilherme não inventou o gênero: os Estados passaram séculos contando o que possuíam porque precisavam saber sobre o que podiam cobrar impostos e com o que podiam contar para a defesa. Os censos romanos são o antepassado mais claro. A cada cinco anos, dois magistrados chamados censores — cargo criado por volta do ano 443 antes de Cristo, embora a tradição atribuísse o primeiro censo ao rei Sérvio Túlio no século VI antes de Cristo — convocavam os cidadãos para registrar seus nomes, suas idades e seus bens. Essa lista servia para repartir os impostos e para saber quantos homens podiam pegar em armas; ao terminar, uma cerimônia de purificação chamada lustrum fechava o ciclo, e dessa palavra ficou nas várias línguas modernas a ideia de um período de cinco anos.

Muito antes, no Egito dos faraós, os escribas já mediam os campos depois da cheia do Nilo e anotavam em papiros as parcelas, suas lavouras e o tributo que deviam pagar. O célebre Papiro Wilbour, um registro cadastral da época raméssida redigido por volta de 1150 antes de Cristo, mostra como o Estado inventariava a terra para cobrar sobre ela. Em todos os casos repete-se a mesma lógica: o inventário nasceu junto com o poder, porque o poder cobrava tributos, organizava exércitos e precisava conhecer o reino que governava. Contar era governar.

O gênero dos inventários patrimoniais

Não só os Estados contavam. Entre a Baixa Idade Média e o Renascimento, as cidades europeias desenvolveram um gênero próprio: o inventário post mortem. Quando uma pessoa morria deixando bens a partilhar, um notário ou um executor testamentário percorria a casa, muitas vezes cômodo por cômodo, e lavrava ata de cada móvel, cada roupa, cada joia, cada caldeirão, cada livro e cada dívida pendente. O documento protegia os herdeiros — que aceitavam a herança com benefício de inventário, respondendo apenas até o valor recebido — e os credores, que podiam reclamar sobre bens identificados um a um. Também se inventariavam oficinas e comércios, com suas ferramentas, suas matérias-primas e seus estoques de mercadoria.

Esses documentos, lavrados diante de notário aos milhares entre os séculos XIII e XVII, conservam-se hoje nos arquivos europeus e são uma mina para os historiadores: graças a eles é possível reconstruir como as pessoas se vestiam, o que cozinhavam, como uma casa era mobiliada ou o que vendia um lojista. Um exemplo célebre é o inventário levantado em 1419 dos bens do mercador florentino Bernardo di Giorgio de Bardi, que enumera desde um berço até os cordeiros de suas fazendas; outro é o da casa do mercador português Emmanuel Ximenez em Antuérpia, lavrado em 1617, com sua biblioteca, sua baixela de prata e até o laboratório do sótão. Ao lado deles, os arquivos portuários guardam inventários de naufrágios e de cargas: listas feitas diante das autoridades do que se resgatava de uma nau afundada ou encalhada, necessárias para repartir prejuízos, cobrar seguros e devolver a mercadoria aos seus donos. Antes que existissem as estatísticas, o inventário era a forma mais exata de descrever uma vida, um ofício ou um naufrágio.

Dos reinos às empresas

Com a expansão do comércio, o inventário deixou de ser assunto exclusivo de reis e notários e virou prática empresarial. As grandes companhias coloniais, como as que negociavam com a Ásia e com as Américas, mantinham armazéns em portos e feitorias de três continentes cujo valor estava quase por completo na mercadoria: especiarias, tecidos, metais, tintas. Manter o registro desses estoques e contá-los quando os navios chegavam e quando partiam era a única maneira de saber quanto capital a companhia realmente tinha, a milhares de quilômetros da sua sede. A contagem periódica de estoques tornou-se, assim, uma rotina inseparável do grande comércio.

Já no século XX, o inventário tornou-se industrial. As fábricas e as grandes lojas adotaram o inventário físico anual: uma vez por ano, geralmente em datas de pouco movimento ou durante as férias de fim de ano, a planta ou o estabelecimento era fechado e todos os funcionários disponíveis passavam dias contando peça por peça, prateleira por prateleira, enquanto os auditores vigiavam o procedimento. O resultado servia para ajustar os livros, avaliar os estoques nas demonstrações financeiras e detectar furtos, erros ou perdas. Aquele ritual de encerramento do exercício, com a empresa parada por dias, foi durante décadas a própria imagem do inventário.

O inventário hoje: contar sem parar o negócio

Parar uma operação inteira para contá-la tem um custo enorme, e por isso as empresas modernas preferem não esperar por uma única grande contagem. A contagem cíclica divide o armazém em seções ou categorias e conta uma parte a cada semana ou a cada mês, de modo que ao longo do ano tudo seja verificado ao menos uma vez; os itens mais valiosos ou mais movimentados são contados com mais frequência, e as diferenças são detectadas cedo, quando ainda é possível investigar a sua causa. O inventário rotativo alcança assim o objetivo que o Domesday Book perseguia — saber, com certeza, o que existe — sem precisar parar o negócio nem esperar o encerramento do exercício.

Grandes operações de contagem da história

OperaçãoDataO que foi contadoPara que servia
Registro de terras do Egito raméssida (Papiro Wilbour)Por volta de 1150 a. C.Parcelas, lavouras e tributosCobrar impostos sobre a terra
Censo romano dos censoresA cada cinco anos, desde 443 a. C.Cidadãos, idades e bensRepartir impostos e organizar o exército
Domesday Book1086Terras, senhores, camponeses, gado, moinhos e valoresConhecer, avaliar e tributar o reino; resolver disputas
Inventários post mortem diante de notárioSéculos XIII a XVIIBens de casas, oficinas e comérciosProteger heranças, créditos e tutelas
Inventários de naufrágios e cargasSéculos XIV a XVIIIMercadorias resgatadas e restos de nausRepartir prejuízos, cobrar seguros e fazer justiça
Contagens das companhias coloniaisSéculos XVII e XVIIIEstoques de armazéns e feitorias ultramarinosConhecer o capital investido em mercadoria
Inventário físico anual de fábricaSéculo XXTodos os estoques, com a planta paradaAuditar os livros e avaliar o balanço
Contagem cíclica e rotativaAtualidadePartes do armazém por rotaçãoControlar estoques sem parar a operação

Do pergaminho de Winchester à tela do almoxarife corre um mesmo fio: a necessidade de saber o que se tem, onde está e quanto vale. A escala mudou, mas a pergunta continua a mesma, e hoje as empresas a respondem com registro permanente e contagens periódicas em vez de grandes campanhas anuais. Para esse trabalho cotidiano de levar o dia a dia dos estoques e conciliar o contado com o registrado existem ferramentas digitais como o Kardex Tauro, que herdam, nove séculos depois, o espírito do grande livro de Guilherme: que nada fique sem anotar.

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