A história da auditoria: do escriba verificador ao auditor externo

A história da auditoria: do escriba verificador ao auditor externo
Quem vigia quem escreve os livros? A pergunta é tão antiga quanto a própria contabilidade, e a resposta mudou de rosto ao longo dos séculos: primeiro um funcionário do palácio, depois um ouvinte sentado diante do administrador que prestava contas, mais tarde um contador contratado pelos sócios e, hoje, um auditor externo que emite parecer sobre demonstrações financeiras diante do mercado. Este artigo percorre a história dessa função, a verificação independente de contas, desde os escribas que conferiam registros alheios até o auditor que assina um parecer. A história da profissão contábil, com suas escolas, guildas e associações, já foi contada em outra matéria deste blog; aqui a profissão aparece apenas de passagem, porque o protagonista é o ato de auditar: conferir, com independência, o que outros registraram.
A verificação antes de existir a palavra
Muito antes de existir a palavra «auditoria» já existia a prática. Nas primeiras civilizações, os escribas que registravam grãos, gado ou tributos sabiam que suas tabuletas seriam revisadas por outros funcionários: a conferência cruzada fazia parte do ofício, pois um registro sem verificação servia para pouco. Na Atenas clássica, a desconfiança democrática em relação aos que manejavam dinheiro público produziu um sistema notável. Todo magistrado que tivesse administrado fundos devia prestar contas ao deixar o cargo: dez logistai, cidadãos escolhidos por sorteio, examinavam suas contas, identificavam faltas ou cobranças indevidas e, quando encontravam irregularidades, levavam o caso aos tribunais. Não eram funcionários de carreira, mas cidadãos comuns investidos temporariamente de uma função de fiscalização: um antecedente remoto, porém reconhecível, do auditor.
Roma foi menos inovadora em técnica contábil do que a Grécia, mas transformou o controle em instituição. Os questores administravam o erário público e respondiam por ele; os censores supervisionavam os contratos do Estado; e os magistrados, ao deixar o cargo, deviam dar conta de sua gestão. O princípio era o mesmo de Atenas: quem maneja recursos alheios precisa demonstrar, com registros, que os usou corretamente. O fato de a ideia parecer óbvia hoje só torna sua história mais notável: durante séculos, grande parte da humanidade viveu sem ela.
«Auditar» significava «ouvir»: a origem da palavra
A palavra que usamos hoje nasceu de um gesto físico: escutar. «Auditor» vem do latim audire, «ouvir». No latim medieval, o auditor era o juiz ou examinador de contas, e em inglês a palavra está documentada desde o começo do século XIV com o sentido de «funcionário que recebe e examina contas». Não era metáfora: as contas eram examinadas em voz alta.
Nos feudos e mosteiros da Idade Média, o administrador, o mordomo da propriedade ou o monge encarregado de um ofício, prestava contas uma vez por ano diante do senhor, do abade ou de seus delegados. Ele lia em voz alta o balanço do ano: rendas recebidas, despesas pagas, gado nascido e morto, colheitas vendidas. Os auditores escutavam, comparavam o dito com recibos e registros e aprovavam ou impugnavam cada item. Aquela cerimônia era, literalmente, uma audiência de contas: uma contabilidade que se dizia e uma verificação que se fazia ouvindo. Dessa prática oral vem o verbo auditar, e em algumas universidades de língua inglesa o ouvinte que assiste a um curso sem se matricular ainda é chamado de auditor.
A verificação segue o dinheiro: fatores, sucursais e livros que viajavam
Com o despertar do comércio, a verificação deixou de ser assunto exclusivo de reis e abades. O mercador que cruzava as feiras não podia vigiar pessoalmente cada saco de lã nem cada letra de câmbio: precisava que outros vendessem, comprassem e cobrassem em seu nome. Foi assim que surgiram os fatores e agentes, pessoas que administravam negócios alheios longe dos olhos do dono. E voltou a pergunta de sempre: como saber que o fator não enganava?
A resposta das grandes casas mercantis foi transformar a prestação de contas em rotina. Dos arquivos do mercador de Prato Francesco Datini, no século XIV, às companhias do Renascimento, os fatores deviam manter livros próprios e enviar à sede o detalhe periódico de suas operações; os registros das sucursais eram comparados com os da matriz e as diferenças, investigadas. As milhares de cartas e livros conservados mostram até que ponto o controle era uma obsessão prática: o dono queria saber, em números, o que tinha acontecido com seu dinheiro. A mudança foi sutil, porém decisiva: já não se tratava apenas de ouvir uma declaração anual, mas de revisar livros contínuos, comparar registros entre escritórios e rastrear operações individuais. A semente da auditoria moderna, o exame de papéis e não só de palavras, estava plantada.
O século XIX britânico: a lei torna a auditoria obrigatória
O salto decisivo ocorreu no Reino Unido do século XIX, quando a Revolução Industrial multiplicou as sociedades por ações: estradas de ferro, bancos e fábricas pertenciam a milhares de acionistas que não participavam da gestão. O acionista precisava de informação confiável, e a gerência era quem a produzia: entre os dois, a lei colocou o auditor.
A Joint Stock Companies Act de 1844 permitiu constituir companhias por simples registro e exigiu que elas submetessem suas contas a auditores. O experimento, porém, não se sustentou: a lei de 1856 eliminou a obrigação e, durante décadas, a auditoria foi voluntária, embora muitas empresas a mantivessem por decisão própria, incluindo-a em seus estatutos. Dois abalos mudaram o rumo. O primeiro foi o colapso do City of Glasgow Bank em outubro de 1878, um dos maiores bancos do Reino Unido: seus diretores tinham maquiado os balanços e, como a responsabilidade dos sócios era ilimitada, a falência arruinou quase todos os acionistas. O escândalo levou à Companies Act de 1879, que obrigou os bancos a auditar suas contas todos os anos. O segundo foi a consolidação: a Companies Act de 1900 restabeleceu, para as sociedades registradas, a obrigação de submeter as contas anuais a um auditor. Nascia a auditoria anual obrigatória que conhecemos hoje.
Essa demanda também sustentou o nascimento da profissão moderna: no mesmo século foram organizadas na Escócia e na Inglaterra as primeiras associações de contadores e se consolidou a figura do contador público que audita por encargo dos sócios e não da gerência. Essa história profissional, com nomes e datas, este blog já contou em sua matéria sobre a profissão contábil; aqui basta assinalar que a função de auditar, até então esporádica, tornou-se um serviço permanente e exigido por lei.
Estados Unidos: a auditoria chega ao mercado de capitais
Do outro lado do Atlântico, a auditoria tornou-se obrigatória pela porta do mercado de capitais. Antes de 1929, as empresas americanas que ofereciam ações ao público não eram obrigadas a publicar demonstrações financeiras verificadas; a informação era desigual e, com frequência, enganosa. O crash da bolsa e a Grande Depressão convenceram o legislador de que a confiança dos investidores precisava de uma base sólida.
A Securities Act de 1933 exigiu informação verdadeira na oferta de valores, e a Securities Exchange Act de 1934 criou a Securities and Exchange Commission (SEC), a agência encarregada de vigiar os mercados. Nesse marco, as empresas listadas em bolsa devem apresentar demonstrações financeiras auditadas por contadores públicos independentes: auditar deixava de ser um assunto privado entre donos e administradores e se tornava uma condição imposta pelo Estado para acessar o dinheiro do público.
A partir de então, e durante todo o século XX, a auditoria externa cresceu no ritmo das grandes corporações. As firmas de contadores se transformaram em organizações com escritórios em dezenas de países, o parecer do auditor tornou-se requisito das bolsas de valores do mundo inteiro e a verificação independente se consolidou como uma indústria de escala global.
A auditoria moderna: externa, interna e com normas
Durante o século XX a auditoria se ramificou. A auditoria externa, praticada por um contador público independente, produz o parecer que acompanha as demonstrações financeiras: expressa se elas refletem razoavelmente a situação da empresa. A auditoria interna, por sua vez, é uma função da própria organização: seus profissionais revisam processos, controles e riscos para ajudar a gerência a manter a informação confiável e os recursos protegidos. Ambas compartilham o mesmo instinto, conferir antes de confiar, mas respondem a interlocutores distintos.
Com a complexidade cresceram as normas. Já não bastava a perícia individual: o auditor trabalha com procedimentos estabelecidos que indicam como planejar uma revisão, que evidência obter e como documentá-la. Conceitos como materialidade (quão grande um erro precisa ser para importar), amostragem (revisar uma parte para concluir sobre o todo) e avaliação de riscos (onde é mais provável um erro ou uma fraude) organizam o trabalho. A verificação deixou de ser uma arte de ouvintes para se tornar uma disciplina com metodologia, supervisão e papéis de trabalho.
A confiança volta ao exame: a virada do século XXI
A história não é uma linha reta rumo a mais controle. No início do século XXI, escândalos como o da Enron, a gigante americana de energia que faliu em 2001 depois de esconder dívidas com artifícios contábeis, e o desaparecimento de sua firma de auditoria, a Arthur Andersen, mostraram que a independência do auditor podia falhar na prática. Os Estados Unidos responderam com a Lei Sarbanes-Oxley de 2002, que reforçou a responsabilidade das gerências sobre as demonstrações financeiras, endureceu as exigências de independência e criou o PCAOB, órgão público encarregado de supervisionar os auditores das empresas listadas. O episódio, longe de ser um detalhe regulatório, lembrou a lição mais antiga da disciplina: o valor de um parecer depende de quem o assina ser verdadeiramente independente de quem preparou os números.
Auditar também é contar o que existe
A auditoria não olha apenas para papéis: olha também para as coisas. Um dos capítulos mais antigos da verificação consiste em conferir se o que dizem os registros existe na realidade, e poucos lugares concentram essa prova como o armazém. Contar fisicamente as existências, a contagem de inventário, é uma prática com séculos de história: o administrador do feudo que declarava ter tantas cabeças de gado precisava mostrar o gado, não só o pergaminho.
Essa lógica segue viva. Quando os inventários são significativos, o auditor costuma presenciar a contagem física, pois as existências são um dos itens em que um erro se esconde com facilidade: um número mal contado, uma mercadoria danificada que continua nos livros ou um registro duplicado. A trilha de auditoria liga o armazém à contabilidade: cada entrada e cada saída deveriam poder ser rastreadas do documento original até o saldo do razão. Por isso a verificação de inventários não é um luxo das grandes empresas: qualquer negócio que guarde mercadorias enfrenta a mesma pergunta de um auditor, o que tenho registrado coincide com o que tenho no depósito?, e respondê-la exige registros confiáveis e uma contagem periódica que os confronte.
A história da verificação de contas pode ser resumida em poucos marcos:
| Marco | Ano | O que mudou na auditoria |
|---|---|---|
| Os logistai examinam os magistrados em Atenas | Séculos V-IV a.C. | Cidadãos escolhidos por sorteio revisam, ao fim do mandato, as contas de quem manejou fundos públicos. |
| O auditor «ouve» a prestação de contas do administrador | Idade Média | Senhores e abades escutam a conta anual de seus administradores; de audire, «ouvir», nasce a palavra auditor. |
| As casas mercantis controlam fatores e sucursais | Séculos XIV-XVI | Os donos comparam os livros de agentes distantes e sucursais; a verificação vira exame de papéis. |
| Joint Stock Companies Act | 1844 | No Reino Unido, as sociedades por ações devem submeter suas contas a auditores. |
| Colapso do City of Glasgow Bank | 1878 | A falência de um grande banco leva à Companies Act de 1879, que obriga os bancos a auditar as contas todos os anos. |
| Companies Act | 1900 | A auditoria anual obrigatória é restabelecida para as sociedades registradas no Reino Unido. |
| Criação da SEC | 1933-1934 | Nos Estados Unidos, as empresas listadas devem apresentar demonstrações financeiras auditadas por contadores independentes. |
| Lei Sarbanes-Oxley | 2002 | Após o escândalo da Enron, a independência do auditor é reforçada e nasce o PCAOB para supervisioná-lo. |
A linha que liga o escriba que conferia os registros do palácio ao auditor que assina um parecer é a mesma: ninguém deveria ter de acreditar sob palavra no que dizem os números. O que mudou foi a escala e a ferramenta. O que há séculos se resolvia ouvindo uma declaração junto ao fogo do castelo, ou conferindo à mão os livros de uma sucursal distante, hoje se resolve com sistemas que registram cada movimento no momento em que ocorre e deixam a evidência pronta para ser verificada. Quem administra um armazém vive essa mesma disciplina, e ela se chama controle de inventários: um registro em dia, comparado de tempos em tempos com o que existe fisicamente no depósito, é a versão cotidiana da auditoria. Um software como o Kardex Tauro faz pelo inventário de um negócio o que o auditor faz pelas contas de uma empresa: permitir que o registrado e o real sejam confrontados sem depender da memória nem da boa-fé.