A história da letra de câmbio

A história da letra de câmbio

A letra de câmbio é um dos instrumentos financeiros mais longevos da história: uma ordem escrita pela qual uma pessoa, o sacador, manda que outra, o sacado, pague uma quantia determinada a um terceiro, o beneficiário, num lugar e num prazo fixados. Durante mais de sete séculos foi, ao lado da moeda, o grande veículo do comércio internacional. Pelos seus circuitos viajou o valor da lã, das especiarias, dos tecidos e do trigo muito antes de existirem bancos centrais, papel-moeda moderno ou transferência eletrónica. Conhecer a sua história é conhecer como a Europa aprendeu a mover dinheiro sem mover moedas.

O problema que resolveu: pagar numa praça distante

Imaginemos um mercador do século XIII que vendeu panos numa cidade a três semanas de caminho e quer receber na sua própria praça, ou que precisa de comprar especiarias noutra para onde não pode viajar com dinheiro em espécie. As suas opções eram poucas e todas más. A primeira, transportar moedas, envolvia riscos enormes: caminhos inseguros, salteadores, naufrágios, portagens e o simples peso do metal. A segunda, esperar para compensar compras com vendas em cada praça, prendia o negócio a uma rede lenta de trocas. Havia ainda um obstáculo político: muitos reinos seguiam políticas que proibiam ou taxavam a saída de metais preciosos, porque consideravam a prata e o ouro a verdadeira riqueza do reino. Exportar moedas podia ser simplesmente ilegal.

A isto juntava-se a confusão monetária: cada praça, cada senhor e cada feira tinham as suas próprias moedas, com pesos e ligas diferentes, e o seu valor relativo mudava sem parar. O mercador não precisava de transportar metal; precisava de que o seu dinheiro valesse noutro lugar. A solução foi separar o valor do seu suporte físico e mover, não as moedas, mas o direito de as cobrar no lugar de destino. Esse tem sido o ofício da letra de câmbio desde a sua origem até hoje.

Antecedentes: o contrato de câmbio e os mercadores italianos

A raiz medieval da letra é o contrato de câmbio, o cambium do direito dos mercadores. Na operação clássica, quem precisava de fundos noutra praça entregava a um banqueiro uma quantia na moeda local; o banqueiro obrigava-se a que o seu correspondente na praça de destino pagasse o valor equivalente, na moeda de lá e à taxa de câmbio pactuada, à pessoa que o cliente indicasse. No início, esse pacto costumava ser lavrado perante notário, com todas as formalidades do direito romano. Com o tempo, a carta que o banqueiro enviava ao seu correspondente a ordenar o pagamento tornou-se mais importante do que o contrato notarial: essa carta era já uma letra de câmbio, um instrumento que viajava por si próprio, podia ser enviada por correio e apresentada para cobrança.

As evidências históricas situam a difusão da letra na sua forma madura sobretudo a partir do século XIII, pelas mãos dos mercadores-banqueiros italianos: lombardos, toscanos, florentinos, venezianos e genoveses, que teceram redes de correspondentes pelas grandes rotas do Mediterrâneo e do norte da Europa. Alguns autores assinalam que instrumentos semelhantes tinham circulado antes no mundo árabe e que os banqueiros italianos os aperfeiçoaram; os historiadores do direito recordam também que cidades como Barcelona regularam já no século XIV a aceitação das letras. O essencial é que, na Baixa Idade Média, a letra era ao mesmo tempo um meio de pagamento, um instrumento de crédito e uma forma de transferir dinheiro entre praças sem mover metal, e que por detrás de cada letra estavam dois banqueiros que confiavam um no outro: os correspondentes.

O primeiro grande palco destas práticas foram as feiras de Champagne, nos séculos XII e XIII, onde os mercadores italianos se encontravam com flamengos, alemães e franceses. Ali se pactuavam os câmbios, ajustavam-se as contas entre casas de países diferentes e faziam-se pagáveis nas feiras muitos desses compromissos. Quando as feiras de Champagne declinaram, a técnica não desapareceu: migrou para outras praças e para as novas feiras de pagamento, mais especializadas.

As feiras de pagamento: quando as letras eram compensadas

Nos séculos XV e XVI surgiram as feiras de pagamento, reuniões periódicas de banqueiros cujo objeto já não era vender mercadorias, mas liquidar letras. A mais célebre foi a de Lyon, que por meados do século XVI se tornara um dos grandes centros de compensação da Europa: ali confluíam letras sacadas sobre todas as praças importantes, vencendo por ocasião da feira. Os banqueiros genoveses, afastados de Lyon pela concorrência e pela política, organizaram feiras próprias, primeiro em Besançon, no Franco-Condado, a partir de 1535, e desde 1579 em Placência, no norte de Itália, onde continuaram a funcionar com o nome de feiras de Bisenzone. Nas décadas à volta do ano 1600 foram, segundo os historiadores, a grande câmara de compensação do continente.

O mecanismo destas feiras merece atenção, porque resume a lógica de todo o sistema. As sessões duravam vários dias com uma ordem fixa: apresentavam-se e aceitavam-se as letras vencidas, cada banqueiro declarava os seus créditos e débitos com os demais, as posições eram compensadas multilateralmente e só os saldos finais se pagavam em dinheiro, na moeda da feira. No fim, um banqueiro que devia numa praça e cobrava noutra podia ficar quite sem que uma única moeda cruzasse o caminho entre ambas. As letras não só pagavam dívidas: também serviam para conceder crédito entre feiras e para especular com as variações do câmbio entre praças.

O endosso: a letra torna-se transferível

Na sua forma original, a letra era uma ordem de pagamento a favor de uma pessoa determinada. O beneficiário podia cobrá-la, ou encarregar outro de a cobrar por ele, mas transmiti-la a um terceiro como pagamento não era simples. A prática do endosso, que consiste em assinar no verso do documento para o ceder a outra pessoa, transformou por completo o instrumento. Os historiadores situam o seu aparecimento e generalização nos finais do século XVI e princípios do XVII. No continente circulou antes através de cláusulas que tornavam a letra pagável ao portador, e os primeiros testemunhos documentados do endosso propriamente dito datam dos princípios do século XVII: uma pragmática napolitana de 1607 menciona-o, e o jurista francês Jacques Savary situava a prática por volta de 1620.

Em Inglaterra a evolução foi mais lenta, porque o direito comum relutava em admitir que um crédito pudesse ser transmitido sem o consentimento do devedor. As letras pagáveis à ordem só se generalizaram na prática inglesa depois de 1622, e ainda levaram décadas a impor-se. Foi no século XVIII que os tribunais ingleses, sobretudo sob a influência do juiz Lord Mansfield, incorporaram ao direito comum os costumes dos mercadores e deram plena força legal ao endosso. Com ele, a letra deixou de ser uma mensagem entre dois banqueiros para se tornar um título que circulava de mão em mão: quem a recebia podia pagar com ela por sua vez, e cada endossante respondia perante os titulares seguintes. O crédito comercial começou a circular como circula hoje o dinheiro.

O desconto: a letra torna-se liquidez

O passo seguinte foi o desconto: comprar uma letra antes do seu vencimento pagando menos do que o valor nominal. A diferença entre o que se paga e o que a letra promete é a retribuição de quem adianta o dinheiro, e depende do tempo que falta para o vencimento e do risco do devedor. Durante muito tempo esta operação chocou com as antigas proibições do juro, da usura, e praticou-se de forma encoberta ou em praças mais tolerantes; só quando essas restrições foram relaxadas pôde fazer-se abertamente. Foi sobretudo na Inglaterra dos séculos XVII e XVIII que o desconto se tornou um negócio regular: os ourives-banqueiros de Londres, que guardavam os depósitos dos mercadores e emitiam os seus próprios bilhetes, começaram a descontar letras, e após a fundação do Banco de Inglaterra em 1694 o desconto de letras comerciais tornou-se uma das operações centrais da banca inglesa e, mais tarde, dos bancos regionais.

O efeito foi revolucionário. O mercador que vendera a prazo já não precisava de esperar pelo vencimento para dispor do seu dinheiro: podia levar a letra a um banco, recebê-la na hora por um pouco menos e continuar a comprar e a vender. A letra deixou de ser apenas um meio de pagamento para se tornar um instrumento de liquidez, capaz de converter crédito futuro em dinheiro presente. Ao longo dos séculos, esse mecanismo financiou o capital circulante do comércio atlântico e da Revolução Industrial, quando os bancos ingleses descontavam letras domésticas e estrangeiras para sustentar a produção e o movimento de mercadorias.

A regulação: do costume mercantil à lei uniforme

Durante séculos a letra foi regida pelo costume dos mercadores, a chamada lex mercatoria, aplicada pelos tribunais das feiras, pelos consulados e pelas cidades mercantis. As ordenanças e compilações mercantis dos séculos XVII e XVIII puseram por escrito muitas dessas práticas, e os países de tradição anglo-saxónica consolidaram a matéria no século XIX, codificando a jurisprudência acumulada sobre letras, livranças e cheques. O problema é que cada país tinha as suas regras, e a letra, por natureza, cruza fronteiras: um mercador precisava de saber que o documento que assinara na sua praça valeria na do outro extremo da Europa.

No século XX tentou-se finalmente unificar o direito cambiário à escala internacional. Após os trabalhos preparatórios de Haia dos princípios do século, a Sociedade das Nações convocou conferências em Genebra que aprovaram, na década de 1930, convenções com uma lei uniforme sobre a letra de câmbio e a livrança, em 1930, e sobre o cheque, em 1931; a lei uniforme sobre letras entrou em vigor em 1934. Muitos países, sobretudo de tradição continental, incorporaram essa lei uniforme nos seus ordenamentos, enquanto os de tradição anglo-saxónica conservaram as suas próprias codificações. O resultado prático foi uma convergência notável: uma letra bem emitida é hoje reconhecida, nos seus requisitos essenciais, numa grande parte do mundo.

A letra no presente

Longe de desaparecer, a letra de câmbio continua viva no comércio e na banca. Usa-se em operações internacionais como meio de pagamento documentário, é descontada nos bancos como crédito de curto prazo, serve de garantia e de instrumento de cobrança entre empresas e, em vários países, é ainda empregue no financiamento de vendas a prestações. A sua versão eletrónica, amparada por normas que dão valor à assinatura digital, cumpre hoje a mesma função da carta do banqueiro medieval: ordenar o pagamento de uma quantia num lugar diferente daquele onde foi emitida. Mudou o suporte, do pergaminho ao ficheiro informático; não mudou a lógica.

Uma tabela para resumir a evolução

ÉpocaDesenvolvimentoEfeito no comércio
Séculos XII-XIIIOs mercadores italianos difundem a letra e as suas redes de correspondentes; as feiras de Champagne são o grande palco do câmbioO valor começa a viajar entre praças como crédito, sem transportar moedas
Séculos XV-XVIAs feiras de pagamento de Lyon e as feiras genovesas de Besançon, depois Placência, compensam letras de toda a EuropaAs dívidas entre praças são saldadas por compensação multilateral, com pouco dinheiro
Finais do XVI-XVIIO endosso permite ceder a letra no verso e fazê-la circular de mão em mãoO crédito comercial circula e uma mesma letra pode pagar dívidas sucessivas
Séculos XVII-XVIIIO desconto: ourives-banqueiros londrinos e depois o Banco de Inglaterra compram letras antes do vencimentoO crédito futuro torna-se liquidez imediata para o mercador
Séculos XIX-XXOs costumes são codificados e as conferências de Genebra de 1930 e 1931 aprovam leis uniformesRegras essencialmente comuns para a letra em grande parte do mundo
HojeDesconto bancário e versões eletrónicas da letra com assinatura digitalO instrumento adapta-se à era digital sem mudar a sua lógica original

A tabela resume sete séculos em poucas linhas: cada desenvolvimento alargou o que a letra podia fazer, do pagamento entre duas cidades à circulação do crédito, à liquidez imediata e, por fim, à segurança jurídica internacional.

Do papel ao ecrã: a ponte com o presente

A letra de câmbio resolveu, há séculos, o problema de fazer chegar o valor de um lugar a outro sem transportar moedas. Hoje a pergunta que ocupa muitos comerciantes é quase a inversa: saber com precisão que mercadorias garantem os seus recebimentos e pagamentos, e onde está cada coisa em cada momento. Para essa tarefa quotidiana existem programas de gestão de inventários como Kardex Tauro, que ajudam as empresas a manter o controlo das suas existências dia após dia. A letra, entretanto, continua a fazer nos pagamentos o que sempre fez: mover o valor com uma assinatura, sem mover o metal.

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