O que é contabilidade e por que um negócio com estoque precisa dela

O que é contabilidade e por que um negócio com estoque precisa dela

Bem-vindo à primeira lição do manual de contabilidade para pequenos negócios. Este curso foi pensado para quem compra mercadoria, guarda-a num depósito ou numa prateleira e a vende: lojas de bairro, ferragens, papelarias, padarias, distribuidoras e comércios familiares de todo tipo. Antes de falar de ficha de estoque, de custos ou de demonstrações contábeis, precisamos responder a uma pergunta de fundo: o que é contabilidade e por que um negócio que trabalha com estoque não pode viver sem ela?

A resposta curta é esta: a contabilidade é a língua que um negócio usa para falar do seu próprio dinheiro. Sem ela, o dono sabe o que acha que tem, mas não o que realmente tem. Com ela, cada venda, cada compra, cada pagamento e cada dívida ficam anotados de forma organizada e viram informação útil para decidir. Nesta lição vamos definir o que é a contabilidade, o que ela não é, para que serve num negócio que compra e vende mercadoria, quem a utiliza e por que o estoque é o ativo mais difícil de controlar.

O que é contabilidade

A contabilidade é o registro sistemático e organizado das operações econômicas de um negócio, expressas em dinheiro. A palavra-chave é sistemático: não se trata de anotar o que a pessoa lembra quando lhe parece conveniente, mas de registrar cada operação no momento em que acontece, com a sua data, o seu valor e o seu motivo, e de organizar esses registros de modo que possam ser resumidos e revisados. É um método, não uma memória.

Pense numa ferragem. Durante um dia comum acontecem dezenas de fatos econômicos: vendem-se três martelos à vista, um cliente compra tinta fiado e promete pagar em quinze dias, chega o caminhão do fornecedor com pregos e parafusos, paga-se a conta de luz, e um cliente devolve uma peça errada e recebe o dinheiro de volta. Cada um desses fatos muda a situação do negócio: há mais ou menos dinheiro no caixa, mais ou menos mercadoria no depósito, mais ou menos dívidas com fornecedores ou direitos a receber dos clientes. A contabilidade registra todas essas mudanças e permite saber, a qualquer momento, qual é o retrato completo do negócio.

Toda essa informação se organiza em torno de três perguntas básicas: o que o negócio tem, o que deve e o que ganhou. O que o negócio tem chama-se ativo: o dinheiro no caixa, a mercadoria, o balcão, a caminhonete de entregas. O que ele deve chama-se passivo: a dívida com o fornecedor, o empréstimo do banco. E o que ele ganhou aparece no resultado: o que sobrou das vendas depois de subtrair o custo da mercadoria vendida e as despesas. Quando essas três perguntas são respondidas com ordem e método, o dono toma decisões de olhos abertos e não no escuro.

O que a contabilidade não é

Saber o que a contabilidade não é importa tanto quanto saber o que ela é, porque os mal-entendidos mais comuns fazem muitos comerciantes negligenciá-la durante anos. A contabilidade não é apenas um trâmite para pagar impostos. Pagar impostos é uma das consequências de ter um negócio, e a contabilidade ajuda a cumprir essa obrigação, mas esse não é o seu propósito principal nem a sua maior utilidade: a contabilidade existe primeiro para que o dono saiba como o negócio dele está indo de verdade.

A contabilidade também não é o caderno de anotações soltas que muitos comerciantes carregam no bolso. Anotar as vendas do dia num caderno é melhor do que não anotar nada, mas não é contabilidade formal: as anotações do caderno não seguem um método, não distinguem o que foi vendido, o que foi gasto e o que foi recebido, não separam o dinheiro do negócio do dinheiro pessoal e, principalmente, não podem ser resumidas em relatórios confiáveis. No melhor dos casos, o caderno responde quanto dinheiro entrou no caixa. Ele não responde quanto se ganhou de verdade, quanto vale a mercadoria que sobrou nem quanto se deve.

A contabilidade também não é assunto exclusivo do contador, nem um requisito apenas de empresas grandes. O contador é quem aplica a técnica, mas o dono é quem decide com a informação: se ele não entende o mínimo, ficará sempre dependendo de que outro explique como vai o próprio negócio dele. E os pequenos negócios não precisam de menos contabilidade que os grandes; precisam de mais cuidado, porque não têm margem para errar.

Para que serve num negócio que compra e vende mercadoria

Um negócio comercial vive de um ciclo simples na aparência: compra mercadoria, guarda-a e a vende por um preço maior. Mas esse ciclo esconde perguntas que nenhum dono consegue responder de memória quando o negócio tem dezenas de produtos e centenas de operações por mês. Quanto ganhei de verdade neste mês? Quanto os clientes que compraram fiado me devem? Quanto devo aos meus fornecedores? Quanto vale a mercadoria que está no meu depósito? O dinheiro dá para o próximo pedido? Estou perdendo margem nas promoções? Cada uma dessas perguntas é uma decisão de negócio, e cada decisão precisa de um dado contábil para ser respondida com fundamento.

Tomemos como exemplo uma padaria que também vende mantimentos. O dono acha que agosto foi um mês excelente porque o caixa recebeu muito dinheiro. Mas a contabilidade mostra outra coisa: boa parte desse dinheiro corresponde a mercadoria comprada em julho que ainda não tinha sido paga, parte foi para trocar o forno e o resto precisa cobrir a grande compra de farinha de setembro. A pergunta certa não é quanto dinheiro passou pelo caixa, mas quanto o negócio ganhou depois de subtrair o custo do que foi vendido e todas as despesas do mês. A tabela abaixo resume as decisões mais frequentes de um negócio com estoque e o dado contábil que responde a cada uma.

Decisão do donoDado contábil que a respondeOnde aparece
Quanto ganhei de verdade neste mês?As vendas menos o custo da mercadoria vendida e menos as despesas do mêsDemonstração do resultado
Quanto os clientes que compraram fiado me devem?O total das vendas a prazo que ainda não foram recebidasContas a receber
Quanto devo aos meus fornecedores?O total das compras a prazo que ainda não foram pagasContas a pagar, dentro do passivo
Quanto vale a mercadoria que está no depósito e nas prateleiras?A quantidade de cada produto vezes o seu custo de compraEstoque, dentro do ativo
O dinheiro dá para o próximo pedido ao fornecedor?O dinheiro disponível mais o que se espera receber nos próximos diasFluxo de caixa
Estou ganhando ou perdendo dinheiro nas promoções?O preço de venda menos o custo de cada produto vendidoMargem e custo da venda

Repare no padrão: todas as perguntas importantes de um negócio comercial acabam tocando o estoque, as vendas ou as compras. Por isso este manual dedica tanto espaço a esses três temas: eles são o coração da contabilidade do pequeno negócio.

Quem usa a contabilidade

A informação contábil não é usada por uma única pessoa. O primeiro e mais importante usuário é o próprio dono, que precisa dela para saber se o negócio está avançando, quanto pode gastar, quanto pode tirar para casa e quais produtos merecem mais esforço. O contador usa-a para manter os registros formais, preparar os relatórios e ajudar o negócio a cumprir as suas obrigações legais. O banco usa-a quando o comerciante pede um empréstimo para comprar mais mercadoria: o banco quer ver, com números organizados, que o negócio gera renda suficiente para devolver o dinheiro. E o Estado usa-a, em termos gerais, para verificar se o negócio declara e paga o que corresponde segundo as regras fiscais de cada país.

Cada um desses usuários olha para a contabilidade com um interesse diferente, mas todos olham para os mesmos registros. Um negócio com boa contabilidade consegue mostrar, em minutos, quanto vende, quanto deve e quanto ganha. Um negócio sem contabilidade não consegue mostrar nada e fica dependendo apenas da palavra do dono, o que vira um problema sério na hora de conseguir crédito, atrair um sócio ou vender o negócio.

Manter registros não é o mesmo que ter contabilidade formal

Vale esclarecer uma diferença que vai atravessar todo este curso: manter registros auxiliares não é o mesmo que manter contabilidade formal. Os registros auxiliares são anotações especializadas que controlam uma parte concreta do negócio: a conferência diária do caixa, a lista de clientes que devem, a relação de contas a pagar e, muito especialmente, a ficha de estoque, que é o registro de entradas e saídas de cada produto. Esses registros são a memória viva do dia a dia e são preenchidos no balcão e no depósito, não no escritório do contador.

A contabilidade formal é o sistema completo que reúne toda essa informação com um método: todas as operações são anotadas seguindo regras uniformes, classificadas e resumidas em relatórios gerais que mostram a situação completa do negócio. A relação entre as duas é de apoio mútuo: a contabilidade formal precisa que os registros auxiliares estejam em dia para poder resumi-los, e os registros auxiliares precisam das regras da contabilidade para que as anotações signifiquem a mesma coisa todos os dias.

A ficha de estoque é o melhor exemplo para um negócio com estoque. Quando uma ferragem vende um galão de tinta, a ficha daquele produto registra uma saída; quando chega o pedido do fornecedor, registra uma entrada. Se a ficha está bem feita, a qualquer momento se sabe quantos galões deveria haver na prateleira, e se a contagem física não bater, o negócio sabe que existe um problema de controle. Ferramentas de prática como o Kardex Tauro fazem esse trabalho de registro automaticamente, mas o conceito é o mesmo ensinado neste manual: cada movimentação de mercadoria precisa ficar anotada para que o estoque diga sempre a verdade.

Mitos frequentes sobre a contabilidade

Com o passar dos anos, várias crenças sobre a contabilidade dos pequenos negócios se instalaram, e vale a pena revisá-las uma a uma, porque é delas que depende o compromisso real do dono com o assunto.

MitoRealidade
A contabilidade serve só para pagar impostos.A sua função principal é informar o dono: quanto ele ganha, quanto tem e quanto deve. Os impostos são uma consequência do negócio, não o motivo da contabilidade.
O caderno de anotações basta até o negócio crescer.Quando o negócio cresce sem registros formais, ninguém sabe quanto deixou de ganhar nem quais produtos rendem; reconstruir anos de informação é caríssimo e quase sempre se perde dinheiro na tentativa.
Se vendo muito, com certeza estou ganhando.Vender não é ganhar. Se o custo da mercadoria e as despesas comerem o preço de venda, dá para vender muito e perder dinheiro, como acontece com promoções mal calculadas.
A contabilidade é coisa do contador.O contador registra e prepara relatórios, mas quem decide com eles é o dono. Um dono que não entende a própria contabilidade comanda o negócio de olhos vendados.
O estoque se controla contando o depósito uma vez por ano.O estoque se movimenta todos os dias e se controla todos os dias: cada entrada e cada saída devem ser registradas para que a contagem física confirme o que dizem os registros.
Misturar o dinheiro do negócio com o dinheiro de casa não tem importância.Sem separação, nunca se saberá quanto o negócio ganha de verdade; despesas pessoais disfarçadas de despesas do negócio são a causa mais comum de as contas não fecharem.

Por que o estoque é o ativo mais difícil de controlar

De todos os bens que um negócio possui, o estoque é o mais difícil de controlar, e vale entender por quê antes de seguir adiante. O estoque é, quase sempre, o ativo mais valioso de um negócio comercial: é a mercadoria que foi comprada com dinheiro e que ainda não virou venda. Mas é também o que mais se movimenta: entra pelas compras, sai pelas vendas, é devolvido, transferido, danificado, vencido, perdido e, às vezes, subtraído. Cada uma dessas movimentações muda o seu valor.

O estoque também tem um problema especial de medição. O dinheiro no caixa conta-se olhando para ele; o estoque, não. Para saber quanto vale a mercadoria que está no depósito é preciso saber o que existe, em que quantidade, a que custo foi comprado e se ainda está em condições de venda. Um saco de café vencido, uma caixa de parafusos molhada ou um lote de camisas num tamanho que ninguém compra já não valem o que custaram. Sem registros, ninguém consegue saber quanto da mercadoria comprada virou venda e quanto se perdeu no caminho: o dinheiro desaparece sem deixar rastro.

Por essa razão este manual se concentra em estoque, vendas e compras. São as três operações que tocam a mercadoria: a compra faz entrar, a venda faz sair, e o estoque é o ponto onde as duas se encontram. Quem domina esse ciclo resolveu a parte mais difícil da contabilidade do seu negócio. Nas próximas lições veremos como se registra cada uma dessas operações, como se avalia a mercadoria e como os registros auxiliares, começando pela ficha de estoque, protegem o bem mais valioso do comerciante.

Uma nota final antes de fechar: este curso ensina princípios gerais de contabilidade que valem em qualquer país, mas as regras fiscais concretas mudam de um lugar para outro. Consulte sempre o seu contador para saber o que a legislação local exige do seu negócio.

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