A contabilidade no mundo islâmico medieval: diwans, souks e tratados

A contabilidade no mundo islâmico medieval: diwans, souks e tratados
Quando se fala da história da contabilidade, costuma-se imaginar os livros dos mercadores italianos do Renascimento ou as tabuinhas da Mesopotâmia. Mas entre os séculos VII e XV o mundo islâmico construiu um dos aparatos administrativos e comerciais mais refinados da Idade Média: repartições estatais que registravam receitas e despesas, inspetores que verificavam pesos, medidas e qualidades nos souks, tratados de aritmética pensados para calcular e uma rede de rotas que ligava o Mediterrâneo à Índia e à China. Este artigo percorre essa história pelos seus três grandes cenários: os diwans, o souk e os tratados.
A herança de dois impérios: Bizâncio e Pérsia
O islã não começou do zero. Em poucas décadas do século VII, os exércitos muçulmanos conquistaram os territórios do Império Bizantino no Oriente Próximo e do Império Sassânida da Pérsia: dois Estados com burocracias fiscais experientes que cobravam impostos, pagavam soldados e guardavam registros escritos havia séculos. Em vez de destruir esse aparato, a administração islâmica nascente o adotou, traduziu seus documentos para o árabe e o adaptou às próprias necessidades.
Dessa síntese nasceu o diwan, termo persa que originalmente designava o registro ou a nómina e que com o tempo passou a nomear a própria repartição. A tradição historiográfica atribui ao califa Umar ibn al-Khattab (634-644) a criação, por volta de 636, de um registro dos estipêndios ('ata) pagos aos guerreiros muçulmanos, ordenado segundo a antiguidade e o mérito na comunidade; para montá-lo, tomou-se como modelo a prática administrativa sassânida encontrada no Iraque e na Pérsia. Assim nasceu o diwan al-jund, o registro do exército: no fundo, uma nómina estruturada e controlada.
Do registro à repartição: o diwan financeiro
Aquele primeiro registro cresceu até virar uma rede de repartições especializadas. Sob os omíadas (661-750), com capital em Damasco, o califa Mu'awiya acrescentou o diwan al-kharaj, o departamento do imposto territorial, que se tornaria o coração fiscal do Estado: para lá confluíam as receitas das províncias e eram anotadas antes de chegar ao tesouro. Acompanharam-no o diwan da correspondência (al-rasa'il), que redigia e arquivava os documentos oficiais, e o diwan do selo (al-khatam), que guardava cópia de tudo o que saía da chancelaria como mecanismo de controle documental.
Com os abássidas (a partir de 750), a máquina atingiu a maturidade. De Bagdá, fundada em 762, o califado administrou um território que ia do Atlântico ao Indo com uma chancelaria central e um tesouro, o bayt al-mal, a casa do dinheiro, que mantinha as contas de receitas e despesas do Estado, em dinheiro e em espécie. O diwan al-kharaj registrava o imposto sobre a terra (kharaj), a capitação dos não muçulmanos (jizya) e a esmola legal (zakat); cada província mantinha sucursais das repartições centrais, e havia departamentos de controle (zimam) que atuavam como contralores: revisavam as contas dos demais diwans e informavam o vizir. Os kuttab, escribas profissionais, formavam uma classe cujo saber —cálculo, caligrafia, direito fiscal— se transmitia de mestre a discípulo e se codificava em manuais de secretaria, como o Livro do Imposto Territorial (Kitab al-Kharaj), escrito no século X pelo funcionário abássida Qudama ibn Ja'far.
Uma ressalva é necessária: essas repartições não praticavam a escrituração por partidas dobradas, que floresceria séculos depois entre os mercadores da Europa mediterrânea. Elas mantinham uma contabilidade simples, porém rigorosa: registro periódico e ordenado de cobranças, pagamentos, estoques e nóminas em livros (dafatir) que deviam fechar, com conferências cruzadas entre repartições e cópias de segurança. Essa disciplina de registrar e verificar é, precisamente, a semente da contabilidade pública moderna.
O muhtasib: controle de qualidade no souk
Fora dos palácios, o controle tinha outro protagonista: o muhtasib, o inspetor oficial dos mercados nomeado pela autoridade, cuja instituição é conhecida como hisba. Seu cargo compartilha a raiz com hisab, a palavra árabe para cálculo ou conta: sua tarefa era vigiar para que as contas do mercado —os pesos, as medidas e os preços— fossem justas.
O muhtasib percorria o souk verificando se as balanças estavam calibradas pelos padrões oficiais, se o pão tinha o peso regulamentar, se os tecidos não eram vendidos com truques (como esconder defeitos sob um bom acabamento) e se ninguém açambarcava grãos para especular com o preço. Inspecionava a qualidade dos ofícios, resolvia disputas menores entre compradores e vendedores e podia punir os fraudulentos com multas ou exposição pública. Em essência, exercia um controle de qualidade e uma espécie de auditoria pública sobre a atividade comercial cotidiana.
Essa prática gerou um gênero literário próprio: os tratados de hisba, manuais que descreviam os deveres do inspetor, as fraudes típicas de cada ofício e os padrões que ele devia exigir. Entre eles destacam-se a obra de Abd al-Rahman al-Shayzari, Nihayat al-Rutba fi Talab al-Hisba (século XII), o tratado do sevilhano Ibn Abdun e o extenso manual egípcio Ma'alim al-Qurba fi Ahkam al-Hisba, de Ibn al-Ukhuwwa (c. 1329). Lidos hoje, são uma fonte extraordinária sobre preços, práticas comerciais e vida econômica das cidades islâmicas medievais.
Calcular e registrar: números, álgebra e papel
Registrar exige calcular. Durante séculos, funcionários e mercadores do mundo islâmico apoiaram-se na matemática indiana: um sistema numérico posicional decimal que incluía um sinal para o vazio, o zero, a que o árabe chamou sifr (de onde vêm as palavras portuguesas cifra e zero). Sua difusão deve muito ao matemático Muhammad ibn Musa al-Khwarizmi, ativo em Bagdá na primeira metade do século IX, sob o mecenato da Casa da Sabedoria. Por volta de 825 escreveu seu célebre tratado de álgebra, cujo título continha as palavras al-jabr e al-muqabala, restauração e redução: de al-jabr vem a palavra álgebra, e do nome do próprio autor, transcrito no Ocidente como Algoritmi, vem algoritmo.
Esses textos, pensados para resolver problemas práticos de heranças, comércio e partilhas, difundiram-se pelo mundo islâmico e, a partir do século XII, as traduções feitas na península ibérica os levaram às escolas da Europa. A notação decimal permitia calcular com rapidez sobre a mesa de pó (takht), um tabuleiro com areia fina, e assentar os resultados nos registros. À matemática somou-se uma mudança decisiva de suporte: o papel. Inventado na China, sua técnica chegou ao mundo islâmico depois da batalha de Talas (751); uma geração depois funcionava um moinho em Samarcanda e por volta de 794 instalou-se outro em Bagdá, sob o califa Harun al-Rashid. O papel era muito mais barato que o papiro e o pergaminho: estudos de preços sugerem que o papiro egípcio do século IX custava cerca de cinco vezes mais que o papel que o substituiu. Registros, arquivos e livros ficaram subitamente acessíveis. Do mundo islâmico a arte espalhou-se por al-Andalus e depois pela Europa: o moinho de Xàtiva (Espanha), documentado a partir de 1151, está entre os primeiros do continente de que há notícia.
O comércio de longa distância: caravanas, contratos e cartas
A contabilidade do mundo islâmico medieval não foi apenas estatal: foi, sobretudo, mercantil. Situado entre três continentes, o califado articulou um comércio que ligava o Mediterrâneo ao Índico, ao golfo Pérsico e ao mar Vermelho; por terra, as caravanas cruzavam o Saara, a Ásia Central e as rotas da seda até a China. Mercadores de Bagdá, Cairo, Damasco, Córdova ou Samarcanda moviam mercadorias —tecidos, especiarias, metais, papel— por milhares de quilômetros.
Dessa atividade conservamos um tesouro documental excepcional: a Geniza do Cairo, o depósito da sinagoga Ben Ezra de Fustat, onde a comunidade judaica guardou durante séculos, por respeito religioso, todo escrito em hebraico ou árabe que contivesse o nome de Deus, inclusive contratos e cartas comerciais. As centenas de milhares de fragmentos recuperados, estudados sobretudo pelo historiador Shlomo Dov Goitein, revelam a contabilidade prática dos mercadores entre os séculos X e XIII: contratos de sociedade, ordens de pagamento, cartas de agentes em outras cidades e anotações de contas.
Para movimentar dinheiro à distância sem expô-lo a caminhos inseguros, os mercadores usavam instrumentos como a suftaja, uma ordem de pagamento entregue a um correspondente em outra praça para que pagasse a um terceiro: um antecedente da letra de câmbio. Circulavam também documentos de pagamento chamados sakk, com os quais os historiadores relacionam o cheque moderno. As contas eram mantidas em registros simples —relações de dívidas, estoques e comissões— administrados por um agente de confiança (wakil) em cada porto ou cidade.
Qirad e mudaraba: financiar o comércio
O comércio de longa distância exigia capital, e o capital exigia formas jurídicas de associação. O mundo islâmico desenvolveu assim a qirad, chamada mudaraba por várias escolas jurídicas: um contrato em que uma parte fornecia o capital e a outra o trabalho, a gestão e a viagem. Os lucros eram repartidos numa proporção pactuada de antemão; se o negócio desse prejuízo, a perda do capital recaía sobre o investidor, e o gestor perdia seu tempo e esforço. Ao proibir o juro (riba), a religião empurrou a economia para esses instrumentos de participação no lucro, que não apenas financiavam o comércio marítimo e de caravanas, mas distribuíam o risco.
A qirad guarda uma semelhança impressionante com a commenda europeia, documentada nas cidades italianas a partir do século XII; historiadores da economia, como Abraham Udovitch, consideram muito provável que a commenda se inspirasse ou derivasse da qirad e da mudaraba, embora não se possa provar com certeza. Os juristas a estudaram em detalhe: o tratadista al-Sarakhsi (m. 1090) dedicou-lhe amplos capítulos de seu grande compêndio jurídico. A mesma figura, com o nome de mudaraba, segue sendo hoje uma das bases das finanças islâmicas modernas.
Tabela-resumo: instituições, funções e contribuições
A tabela a seguir resume as instituições e práticas descritas, sua função e sua contribuição para a história da contabilidade.
| Instituição ou prática | Função | Contribuição à contabilidade |
|---|---|---|
| Diwan | Repartição e registro do Estado | Registro ordenado de receitas, despesas e nóminas |
| Diwan al-kharaj e bayt al-mal | Imposto territorial e tesouro | Concentração e controle central dos fundos públicos |
| Muhtasib e hisba | Inspeção do mercado | Verificação de pesos, medidas, preços e qualidade: controle interno público |
| Numeração indo-arábica e álgebra | Cálculo escrito | Notação decimal posicional: calcular e registrar com rapidez e exatidão |
| Papel | Suporte de escrita | Registros e arquivos baratos, duráveis e multiplicáveis |
| Qirad e mudaraba | Financiamento do comércio | Associação entre capital e trabalho; antecedente da commenda europeia |
Um legado que atravessa os séculos
O mundo islâmico medieval não inventou a contabilidade, mas a fez avançar onde mais importava: no registro sistemático do Estado, no controle cotidiano do mercado, na matemática aplicada ao cálculo e nas formas jurídicas do comércio à distância. Seu vocabulário sobrevive nas nossas línguas: armazém vem do árabe al-makhzan, o depósito onde se guardavam e controlavam as mercadorias; e alfândega, a nossa aduana, descende do árabe al-fundaq, a hospedaria-armazém dos mercadores estrangeiros onde as mercadorias eram conferidas —a mesma família do espanhol aduana, que remonta, pelo árabe andaluz, a diwan, a repartição que registrava o que entrava e saía do país.
Registrar o que entra, o que sai e o que fica, verificar pesos e qualidades, deixar prova escrita de cada operação e prestar contas: essa disciplina dos escribas de Bagdá, dos inspetores do souk e dos mercadores da Geniza é a mesma de que qualquer negócio precisa hoje. A tecnologia mudou o suporte —do livro de contas ao software—, mas a lógica permanece. Um sistema de estoques como o Kardex Tauro digitaliza essa velha disciplina: cada entrada e saída fica registrada, controlada e disponível para quem precisa prestar contas, como o escriba do diwan anotava em seu daftar, só que com a velocidade e a exatidão que o cálculo decimal, o papel e séculos de prática tornaram possíveis.