Benedetto Cotrugli: o tratado que antecedeu Pacioli (1458)

Benedetto Cotrugli: o tratado que antecedeu Pacioli (1458)

Quando se fala das origens da contabilidade moderna, a história costuma resumir-se a um nome: Luca Pacioli, o frade que publicou em Veneza, em 1494, a sua Summa de arithmetica com um célebre capítulo sobre as partidas dobradas. Bem menos conhecida é a história de quem chegou primeiro. Trinta e seis anos antes dessa impressão, um mercador e diplomata nascido em Ragusa (a atual Dubrovnik) terminou um tratado que já descrevia, com ordem e critério, o sistema de escrituração por partidas dobradas. O autor chamava-se Benedetto Cotrugli, e a obra tinha por título Della mercatura e del mercante perfetto, isto é, sobre o comércio e o mercador perfeito.

A obra foi escrita por volta de 1458, mas só foi impressa em 1573. Esse descompasso de mais de um século entre a pena e a prensa explica boa parte do seu destino: enquanto o manuscrito circulava em poucas cópias entre conhecidos, o livro de Pacioli viajava por toda a Europa em edições impressas. A fama escolheu quem chegou às prensas, não quem chegou primeiro às ideias. Este artigo percorre a vida de Cotrugli, o seu tratado, o contexto mercantil do Mediterrâneo do século XV e as razões para lembrá-lo como o grande precursor da literatura contábil.

Um mercador entre dois mundos: quem foi Benedetto Cotrugli

Benedetto Cotrugli, cujo sobrenome também aparece grafado de Cotrugli ou Cottrugli, e em croata Kotruljević, nasceu por volta de 1416 em Ragusa, cidade da república mercantil homônima situada na costa dálmata do Adriático. Vinha de uma família de mercadores e aprendeu o ofício nos cais, nos armazéns e nas casas de comércio de uma cidade que vivia do intercâmbio entre Oriente e Ocidente. Segundo os seus biógrafos, completou essa formação prática com estudos de filosofia na Universidade de Bolonha, uma combinação pouco habitual que prefigura o perfil do mercador humanista que defendeu nos seus escritos.

Por volta de 1451 instalou-se em Nápoles, onde residiu cerca de duas décadas, até morrer. Nápoles era então a capital do reino governado pela Coroa de Aragão, e ali Cotrugli atuou como homem de negócios e diplomata: representou interesses da coroa aragonesa, participou na vida da corte e tomou parte nos debates próprios do humanismo renascentista. Faleceu em 1469 em Áquila, deixando uma obra breve de enorme valor documental. Mercador de formação e escritor por vocação, Cotrugli pertence a essa geração que começou a tratar o comércio como uma arte digna de estudo e de ensino.

Ragusa e o Mediterrâneo: a escola onde se formou

Para entender o tratado de Cotrugli é preciso entender a sua cidade. Ragusa, hoje Dubrovnik, era a capital de uma pequena república aristocrática que, entre os séculos XIV e XVI, se tornou um dos centros comerciais mais ativos do Adriático. Sem grande território nem grande exército, a república compensou o tamanho com dois recursos: uma frota mercante respeitada, cujo nome deu origem à palavra inglesa argosy para designar um grande navio de comércio, e uma rede de negócios, consulados e agentes que se estendia das costas da Itália aos domínios otomanos.

Esse mundo ragusano era o mundo de Cotrugli. Os seus mercadores negociavam tecidos, sal, prata dos Bálcãs, especiarias e produtos orientais, movendo-se entre a órbita veneziana, o reino de Nápoles e os portos do Levante. A concorrência com Veneza era constante, e a sobrevivência dependia da reputação, do cálculo e de registos confiáveis. Nesse ambiente, a contabilidade era uma ferramenta de gestão quotidiana: quem a dominava levava vantagem em cada feira e em cada acerto de contas. Cotrugli cresceu a observar essa prática e, anos depois, transformou-a em livro.

Della mercatura e del mercante perfetto: um manual com alma de retrato

Cotrugli redigiu a sua obra principal por volta de 1458, nos anos em que residia em Nápoles. O manuscrito original é conhecido como Libro de l'arte de la mercatura, embora tenha entrado para a história com o título da sua primeira edição impressa, Della mercatura e del mercante perfetto. Apesar da fama posterior, não é um manual de contabilidade: é um tratado geral sobre o ofício de mercador, em quatro partes que vão do profissional ao pessoal: a primeira trata da origem e da essência do mercador; a segunda, do seu compromisso religioso; a terceira, das virtudes morais; a quarta, da administração da casa, da família e dos assuntos económicos.

O coração do livro é o retrato do mercador perfeito. Para Cotrugli, o bom mercador é antes de tudo um homem honesto: deve cumprir a palavra, medir as promessas, pagar as dívidas e tratar com equidade clientes, sócios e autoridades. Deve ser prudente, paciente e laborioso, capaz de madrugar e de manter as suas contas em dia, e deve ser também um homem de letras: saber escrever com correção, exprimir-se com clareza, conhecer as leis e os costumes dos lugares onde comercia e comportar-se com tato diplomático. O tratado é ainda uma defesa do comércio: o mercador, insiste Cotrugli, serve a comunidade movimentando bens e criando riqueza, e por isso merece respeito. Essa dignificação do ofício, escrita por um prático e não por um teórico, é um dos traços mais modernos da obra.

O capítulo que antecedeu Pacioli: as partidas dobradas por escrito

O interesse histórico do tratado concentra-se no décimo terceiro capítulo da primeira parte, intitulado na língua da época Del hordine de tenere le scripture con ordine mercantile, isto é, sobre a ordem de manter os registos com método mercantil. Em poucas páginas, Cotrugli descreve o sistema de escrituração por partidas dobradas que os mercadores italianos já praticavam: um método em que cada operação é lançada duas vezes, uma a débito e outra a crédito, de modo que os livros se conferem entre si e o saldo sirva de prova da gestão. Descreve também três livros principais: o memorial ou borrador, onde cada operação é anotada no momento em que ocorre; o diário, onde os lançamentos são ordenados por datas; e o razão, também chamado livro maior, onde as contas são classificadas por devedores e credores. E adverte: as cifras devem escrever-se com clareza, sem emendas que levantem suspeitas.

Convém ser preciso quanto ao alcance desse trecho. Cotrugli não inventou as partidas dobradas: o método veneziano já era praticado havia muito tempo nas cidades mercantis italianas, e conservam-se livros de contas reais com lançamentos duplos de épocas anteriores. O seu mérito é outro: ter sido, tanto quanto se sabe, o primeiro a pôr por escrito, como descrição ordenada e ensinável, um sistema que até então vivia sobretudo na prática e na memória dos mercadores. O próprio Cotrugli tinha consciência do desafio: escrever sobre estas matérias, advertia, pode tornar-se muito extenso, porque sem a voz viva de um mestre dificilmente se aprende por completo. Por isso o seu texto não é um manual exaustivo com exemplos numerados, mas um tratado que explica o método e a sua razão. A data do manuscrito, 1458, faz dele a descrição escrita mais antiga que se conhece das partidas dobradas, três décadas e meia anterior à Summa de Pacioli. O texto era acompanhado ainda de um apêndice com um inventário de bens e numerosos lançamentos de diário: material prático pensado para ilustrar o método.

Um manuscrito que demorou 115 anos a chegar à imprensa

Se o tratado foi escrito por volta de 1458 e o mundo teve de esperar até 1573 para o ler impresso, o motivo está na forma como os saberes circulavam no século XV: de mão em mão, em cópias manuscritas. A cópia mais antiga que se conserva do texto data de 1475 e está guardada na Biblioteca Nacional de Malta; outra cópia antiga, do final do século XV, encontra-se na Biblioteca Marciana de Veneza. Essas poucas cópias feitas a pena eram o único veículo de uma obra que os leitores conheciam por recomendação pessoal.

A primeira edição impressa chegou em 1573, em Veneza, pelas mãos do editor Franciscus Patricius, já com o título Della mercatura e del mercante perfetto. Uma segunda edição foi publicada na mesma cidade em 1602, e em 1613 apareceu em Lião uma tradução francesa com o título Le parfait négociant. Mas a imprensa chegou tarde e não inteiramente fiel: os investigadores que compararam as edições com os manuscritos verificaram que o texto impresso abreviou e modificou o capítulo sobre contabilidade, obscurecendo parte do conteúdo original. Quando a obra finalmente se difundiu, fê-lo em versão reduzida, tarde demais para cumprir o papel que merecera décadas antes.

Cotrugli e Pacioli, frente a frente

A comparação entre as duas obras ajuda a perceber por que razão a história repartiu a glória de maneira tão desigual.

ObraAno de redaçãoAno de impressãoDifusãoImpacto
Della mercatura e del mercante perfetto (Cotrugli)Por volta de 14581573Cópias manuscritas e edições tardias, com o capítulo contábil abreviadoDescrição pioneira, mas de influência limitada no seu tempo
Summa de arithmetica (Pacioli)14941494Edições impressas difundidas por toda a EuropaPadronizou e popularizou o método; base do ensino contábil moderno

A tabela resume o contraste. A Summa de Pacioli não foi a primeira descrição do método, pois Cotrugli a antecedeu em 36 anos, mas foi a primeira a chegar em massa aos leitores. O capítulo que Pacioli dedicou à contabilidade, conhecido como Particularis de computis et scripturis, explicava as partidas dobradas com detalhe, com a ordem dos livros e exemplos concretos, pensado para que um comerciante pudesse aprendê-lo sem mestre. A imprensa fez o resto: em poucas décadas o texto circulou por toda a Europa e tornou-se a referência com que se formaram gerações de guarda-livros.

Porque a fama escolheu Pacioli

A resposta curta é que a história da contabilidade não se escreveu pela ordem de aparecimento das ideias, mas pela ordem de chegada dos livros às mãos dos leitores. Pacioli publicou em 1494, em plena expansão da imprensa, e a sua obra era um compêndio de aritmética aplicada que servia de texto de estudo; o capítulo contábil viajou dentro desse grande livro e foi citado, copiado e ensinado nas escolas de ábaco e nas casas de comércio. Cotrugli, pelo contrário, escreveu para um círculo reduzido, num manuscrito que mal saiu de Nápoles e de Ragusa, e quando finalmente foi impresso, em 1573, o método já se difundia há décadas sob o nome de Pacioli. Nessa altura, o frade de Sansepolcro já se tinha tornado o símbolo do método veneziano, e a posteridade deu-lhe o título que a história lhe reconhece: o pai da contabilidade moderna.

Essa atribuição não é injusta se for entendida como um reconhecimento ao divulgador que transformou uma prática de oficinas numa disciplina ensinável. Mas torna-se injusta se fizer esquecer que as partidas dobradas não nasceram com a Summa: vinham da prática mercantil italiana e já tinham encontrado, décadas antes, um mercador de Ragusa disposto a explicá-las por escrito. Cotrugli não ganhou a fama, mas ganhou a corrida do papel: o seu manuscrito de 1458 é, tanto quanto se sabe, o primeiro texto que descreve a escrituração por partidas dobradas. A história da contabilidade tem assim duas datas fundadoras: uma silenciosa, 1458, e uma célebre, 1494.

O legado de um precursor

Durante séculos, Cotrugli foi uma nota de rodapé para especialistas. Nas últimas décadas, a investigação histórica reabilitou-o: os estudos sobre o seu capítulo contábil, como os do professor Basil Yamey, confirmaram a antiguidade da descrição, e a sua figura recebeu reconhecimentos públicos. O Estado croata cunhou em 2007 uma moeda comemorativa de prata em sua honra, e uma escola de negócios da região leva o seu nome. Em 2016 foi publicada em Veneza a edição crítica do seu manuscrito, preparada por Vera Ribaudo; em 2017 surgiu a primeira tradução inglesa completa do tratado, e um ano depois uma edição italiana popular aproximou-o de novos leitores com o evocativo título Arricchirsi con onore, enriquecer com honra.

Esse título resume bem a lição de Cotrugli: a riqueza mercantil não está em conflito com a honestidade, e a ordem nos livros é a melhor prova de ambas. O seu retrato do mercador perfeito, honesto, prudente, trabalhador e meticuloso com as contas continua a ser, cinco séculos depois, uma descrição atual do bom gestor.

Do livro razão do século XV ao inventário digital

A contabilidade mudou de suporte, mas não de espírito. O mercador de Cotrugli anotava a pena cada operação, no memorial, no diário e no razão, para saber a todo o momento o que tinha, o que devia e o que lhe deviam; o gestor de hoje precisa dessa mesma certeza sobre a sua mercadoria, as suas existências e os seus movimentos, só que os livros já não se escrevem à mão. Manter o registo ordenado que Cotrugli exigia do mercador perfeito é uma tarefa que ferramentas como o Kardex Tauro ajudam a resolver de forma prática. Na próxima vez que um inventário bater certo sem sobressaltos, vale a pena lembrar que essa disciplina começou nos portos do Mediterrâneo, passou pela pena de um mercador de Ragusa em 1458 e continua viva em cada livro de contas bem levado. Conhecer essa história não só honra os seus protagonistas: ajuda a valorizar a ordem que o mercador perfeito de Cotrugli já exigia dos seus livros.

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