Ativos fixos e depreciação

Ativos fixos e depreciação

Um negócio que vende mercadorias não compra apenas mercadorias para revender: também compra a registradora com a qual cobra os clientes, a vitrine onde expõe os produtos, o computador onde mantém os seus registros, o veículo que entrega os pedidos e, em muitos casos, a máquina que prepara ou transforma o que vende. Todos esses bens têm algo em comum: não são comprados para serem vendidos, e sim para serem usados durante vários anos. Esta lição explica o que é um ativo fixo, por que a sua compra não é uma despesa do mês, como ela é registrada na contabilidade e o que é a depreciação, isto é, a forma como o custo do bem é distribuído pelos anos em que o negócio o utiliza.

O que é um ativo fixo

Um ativo fixo é um bem tangível que o negócio adquire para usar na sua operação diária e que espera continuar usando por mais de um período contábil. São exemplos típicos a registradora ou caixa registradora, a vitrine ou a prateleira do local, o computador e a impressora, o veículo de entregas, as máquinas, os equipamentos de refrigeração, as ferramentas maiores e os móveis com que se atende aos clientes. A palavra fixo não significa que o bem não possa se mover: um veículo se move o dia inteiro e continua sendo um ativo fixo. O que é fixo é o seu papel dentro do negócio: ele fica trabalhando como ferramenta do negócio, em vez de sair dele como uma mercadoria vendida.

Três características ajudam a reconhecer um ativo fixo. Primeiro, ele é usado: o negócio precisa dele para produzir, atender clientes, administrar ou vender, e por isso ele não se destina à revenda. Segundo, ele dura: a sua vida útil é medida em anos e não em semanas, de modo que o desgaste é distribuído por muitos períodos. Terceiro, ele representa um investimento significativo: um bem durável de pouco valor pode ser tratado como despesa do período sem maior problema, mas um bem de custo importante merece registro e controle próprios, porque a sua informação vai afetar os demonstrativos do negócio durante muitos anos.

A diferença fundamental: estoque e ativo fixo

A classificação mais importante desta lição é a que separa o estoque do ativo fixo, porque é dela que depende o caminho que o custo vai seguir dentro da contabilidade. O estoque é formado pelos bens que o negócio compra com a intenção de vendê-los ou de consumi-los dentro dos serviços que cobra: a mercadoria, a matéria-prima, as embalagens e as peças de reposição entregues ao cliente. O ativo fixo, por sua vez, é formado pelos bens que o negócio compra para usar: eles não entram em uma venda comum e acompanham a operação durante anos.

A diferença não está no nome do bem nem no que ele custa, e sim no destino que o negócio lhe dá: ele foi comprado para ser vendido ou para ser usado? Um mesmo objeto pode ser estoque em um negócio e ativo fixo em outro. A vitrine que a loja compra para expor a sua mercadoria é um ativo fixo da loja; a mesma vitrine fabricada por uma marcenaria para vendê-la é estoque da marcenaria. A tabela seguinte resume os casos típicos do negócio comercial.

CasoEstoque ou ativo fixo?Por quê
Mercadoria comprada para venderEstoqueÉ comprada para ser revendida e o seu custo vira custo da venda quando ela é vendida.
Registradora de caixaAtivo fixoÉ comprada para ser usada ao cobrar e registrar as vendas, não para ser vendida.
Computador do negócioAtivo fixoÉ usado todos os dias na operação ou na administração durante vários anos.
Peças vendidas ou instaladas em serviços cobradosEstoqueSaem do negócio a cada trabalho e o seu custo é repassado ao cliente como custo da venda.
Vitrine ou prateleiraAtivo fixoÉ usada para expor a mercadoria durante muitos anos e não é revendida.

Repare no caso das peças de reposição: se o negócio as vende ou as instala dentro de um serviço que cobra, elas são estoque, porque saem do negócio a cada trabalho. Se, em vez disso, são peças para a manutenção dos próprios equipamentos, não são vendidas nem cobradas, e são tratadas como despesa de manutenção do período. O que decide a classificação é sempre o uso que o negócio vai dar ao bem.

Como se registra a compra de um ativo fixo

Quando o negócio compra um ativo fixo à vista, ele entrega dinheiro de Caixa ou de Bancos e recebe um bem que vai usar durante anos. Essa troca não é uma despesa do mês: a despesa ainda não existe, porque o bem está inteiro e continua trabalhando. Também não vai para o estoque, porque não será vendido. Por isso o registro é uma troca de um ativo por outro: debita-se, ou seja, aumenta-se a conta do ativo fixo, e credita-se, ou seja, diminui-se a conta de Caixa ou de Bancos.

Suponha que o negócio compre à vista uma registradora por 2.400.000. O lançamento do dia da compra fica assim:

  • Débito: Ativo fixo, equipamento de caixa, por 2.400.000: aumenta o ativo do negócio.
  • Crédito: Caixa ou Bancos, por 2.400.000: diminui o dinheiro disponível.

Nesse lançamento não aparece nenhuma despesa e o lucro do mês não é reduzido pela compra: o dinheiro simplesmente se transformou em um bem que o negócio vai continuar usando. Se a compra for a prazo, muda apenas a segunda linha: em vez de Caixa ou Bancos, credita-se a conta Fornecedores ou Contas a pagar, porque nasce uma dívida, e o ativo fixo fica registrado pelo mesmo valor. Quando essa dívida for paga mais tarde, o pagamento também não será uma despesa: será a liquidação de uma obrigação que já ficou registrada na época.

O custo de aquisição

Por quanto o ativo fixo é registrado? Não apenas pelo preço da nota fiscal. Tudo o que o negócio precisa pagar para deixar o bem comprado, entregue e pronto para funcionar faz parte do custo de aquisição: o preço do bem, o frete e o transporte até o local, a instalação e a montagem, os testes de partida e os ajustes iniciais. Todos esses valores somam ao ativo e nenhum deles é despesa do mês, porque sem esses pagamentos o bem não estaria trabalhando no negócio.

Suponha que o negócio compre uma máquina para a sua oficina ou para a área de produção do local. A nota fiscal indica um preço, mas fazer a máquina funcionar custou mais:

Item do desembolsoValor
Preço de compra da máquina8.300.000
Frete e transporte até o local350.000
Instalação e montagem250.000
Partida e testes100.000
Custo total de aquisição do ativo fixo9.000.000

O ativo fixo é registrado por 9.000.000 e não por 8.300.000, e esse é o valor que vai ser depreciado durante a vida útil. Se o negócio gastasse de uma vez o frete e a instalação, o ativo ficaria registrado por menos do que realmente custou e a depreciação dos anos seguintes seria menor do que deveria.

Vida útil e valor residual

A vida útil é o tempo, normalmente expresso em anos, durante o qual o negócio espera usar o bem em condições normais de trabalho. Não existe uma lista universal que a defina: ela depende do tipo de bem, da intensidade do uso, da manutenção que ele recebe e dos planos do próprio negócio. O contador ajuda a escolher um critério razoável e a aplicá-lo de forma consistente a cada ano. A ideia central é que a vida útil seja uma estimativa própria do negócio sobre quanto tempo o bem vai lhe servir, e não um número copiado sem pensar.

O valor residual é a parte do custo que o negócio estima poder recuperar ao final da vida útil, por exemplo vendendo o bem usado ou aproveitando as suas partes. Como essa parte deve ser recuperada, ela não é depreciada: apenas a diferença entre o custo e o valor residual é distribuída. Com a máquina do exemplo, se o negócio estima que ao final de cinco anos poderá recuperar 1.000.000 ao vendê-la usada, o que é distribuído como despesa é 9.000.000 menos 1.000.000, ou seja, 8.000.000.

A depreciação linear: fórmula e exemplo

A depreciação é a distribuição do custo do ativo fixo como despesa ao longo da sua vida útil. A forma mais simples, e a mais usada nos pequenos negócios, é a depreciação linear: a cada ano é reconhecido o mesmo valor de despesa, porque se supõe que o bem presta um serviço parecido em todos os períodos. A fórmula é: depreciação anual igual à diferença entre o custo de aquisição e o valor residual, dividida pela vida útil em anos.

Com a máquina do exemplo, o cálculo fica assim: custo de 9.000.000, valor residual de 1.000.000 e vida útil de cinco anos. A base a depreciar é 8.000.000 e, dividida por cinco anos, resulta em uma depreciação anual de 1.600.000. Esse valor corresponde a cerca de 133.333 por mês, porque 1.600.000 dividido por doze meses é aproximadamente 133.333. Cada ano completo de uso gera, então, 1.600.000 de despesa de depreciação.

A tabela seguinte mostra o que acontece com a máquina ano após ano: a depreciação do ano é somada à depreciação acumulada e o valor contábil líquido, que é o custo menos o valor acumulado, cai período após período até chegar, ao final do quinto ano, ao valor residual estimado de 1.000.000.

AnoDepreciação do anoDepreciação acumuladaValor contábil líquido
0, ano da compra009.000.000
Ano 11.600.0001.600.0007.400.000
Ano 21.600.0003.200.0005.800.000
Ano 31.600.0004.800.0004.200.000
Ano 41.600.0006.400.0002.600.000
Ano 51.600.0008.000.0001.000.000

Ao final do quinto ano a máquina não tem mais base para depreciar: todo o custo, menos o valor residual, já virou despesa. Se o negócio continuar usando a máquina depois desse ano, ele simplesmente para de registrar depreciação, ou revisa com o contador se convém atualizar a estimativa da vida útil.

O lançamento periódico da depreciação

A depreciação não é registrada uma única vez quando o bem é comprado: ela é registrada em cada período, mês a mês, enquanto o bem está em uso. Em cada registro, o negócio reconhece a despesa do período e, ao mesmo tempo, acumula o valor que o ativo consumiu. O lançamento mensal da máquina do exemplo, de cerca de 133.333, fica assim:

  • Débito: Despesa de depreciação, por 133.333: reconhece a despesa do mês.
  • Crédito: Depreciação acumulada, por 133.333: acumula o valor consumido do ativo.

Dois detalhes importam nesse lançamento. Primeiro, o crédito não vai para Caixa nem para Bancos: a depreciação não é uma saída de dinheiro, porque o dinheiro já saiu quando o bem foi comprado. A depreciação reconhece que o ativo está sendo consumido pelo uso, mesmo que ninguém esteja pagando nada naquele momento. Segundo, a conta Depreciação acumulada não é uma despesa: ela é uma conta que subtrai do ativo, por isso é chamada de conta retificadora. A despesa de depreciação, por sua vez, reduz o lucro do período, assim como fazem a despesa com salários ou a despesa com serviços públicos.

O ativo no balanço: valor contábil líquido

No balanço patrimonial o ativo fixo não é apresentado pelo seu custo de compra, e sim pelo seu valor contábil líquido, que é o custo menos a depreciação acumulada. Com a máquina do exemplo, ao final do terceiro ano o balanço mostrará o ativo fixo pelo seu custo de 9.000.000, subtrairá a depreciação acumulada de 4.800.000 e apresentará um valor contábil líquido de 4.200.000.

Esse valor não pretende ser o preço de mercado do bem: se a máquina fosse vendida naquele mesmo dia, talvez se obtivesse mais ou menos do que 4.200.000. O valor contábil líquido diz outra coisa: quanto do custo original ainda falta para ser transformado em despesa por meio do uso futuro do bem. É a informação de que o negócio precisa para saber que parte do seu investimento já foi consumida, quanto ainda falta recuperar com o trabalho do bem e em que momento convém começar a planejar a sua substituição.

Erros comuns com ativos fixos

Cuidar bem dos ativos fixos não é difícil, mas três erros se repetem nos pequenos negócios e distorcem a informação contábil durante anos.

  • Gastar o ativo inteiro no ano da compra. Se a máquina de 9.000.000 for levada de uma só vez para despesas, o lucro daquele ano aparece muito baixo e o dos anos seguintes muito alto, porque o negócio continua usando um bem cujo custo já desapareceu dos registros. A compra apenas troca um ativo por outro; é a depreciação anual de 1.600.000 que vai transformando o custo em despesa, ano após ano.
  • Depreciar o estoque. A mercadoria não é depreciada: o seu custo vira custo da venda quando ela é vendida. Se fosse também depreciada, a despesa seria contada duas vezes e o custo da mercadoria vendida ficaria desorganizado.
  • Não manter o registro dos ativos fixos. Se a compra é lançada como despesa ou simplesmente não é lançada, o negócio perde o controle do seu investimento, não calcula a depreciação e o balanço fica incompleto. Para cada bem convém anotar a sua data de compra, o seu custo total, o lugar onde está e quem o usa.

A boa notícia é que classificar bem cada compra desde o início não exige mais trabalho, e sim método: quando o negócio registra os seus documentos em ordem e cada operação fica identificada pela sua natureza, o contador recebe a informação pronta para revisar e o fechamento de cada mês fica mais rápido. Um negócio que mantém a sua operação diária organizada com um sistema como o Kardex Tauro e aplica as ideias desta lição sabe, a qualquer momento, quanto ainda falta depreciar dos seus equipamentos e quanto representam de verdade as suas despesas do período.

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